Thursday, July 31, 2008

Unser Mann aus Hollywood (or, how I got to see Michael Moore)

Após o episódio quase-pisoteamento-por-turistas-enlouquecidos, eu obviamente tinha que sair de NYC e ir para um lugar onde eu pudesse, de fato, aproveitar o verão. E assim fiz, no dia seguinte à minha vinda de volta para os EUA.

Domingo de manhã cedinho juntei minhas coisas e fui para o LaGuardia, pegar meu vôo para Traverse City, Michigan (aka cherry capital of the world), um dos grandes destinos de veraneio do Midwest ianque e, feliz coincidência, hometown do Respectivo.

Cidade ideal para ir à praia (que não é praia de verdade, mas enfim), esportes aquáticos em geral e veraneio hype. Tá, e o que tem de bom pra mim nisso (já que como uma boa carioca ainda em fase de denial, eu não trabalho com praia)?!

Outra feliz coincidência, eles têm um ótimo festival de cinema, organizado pelo Michael Moore, que é daqui mesmo. Mas os ingressos estavam esgotadíssimos. Porém... como a família do Respectivo tem amigos que são bem próximos ao Michael Moore, conseguimos ingressos para vários filmes, inclusive para o filme da noite de abertura, Vicky Christina Barcelona, o novíssimo do Woody Allen, que o Michael Moore conseguiu permissão da prefeitura da cidade catalã para trazer para cá antes mesmo da pré-estréia oficial que será, obviamente, em Barcelona.

O filme em si não é lá grandes coisas. Acho que o Woody Allen deveria ter morrido depois de Match Point, porque desde então ele só passou vergonha, mas, para os meninos, tem o consolo de ver a Scarlett Johansson e a Penélope Cruz se beijando. E nem é um beijo daqueles. Whatever.

O legal foi ver o Michael Moore ao vivo. Tá, ele é meio over the top nos documentários e tal, mas ele é um cara bem engraçado. E torce para o time de futebol da Michigan State (e não da University of Michigan). E a rivalidade por aqui é grande! Ele apresentou o pessoal que organizou o Traverse City Film Festival junto com ele, incluindo alguns Academy Award winners e tal, tipo o Larry Charles, que dirigiu Borat e alguns episódios de Seinfeld (hail!).

Os filmes que estão por vir devem ser mais interessantes. Um deles fortemente recomendado pelo próprio Michael. Mas veremos... Enquanto isso, vou passar um tempinho passeando e tentando superar meu medo de andar de barco. E tentando descobrir qual é esse lance de cherry capital of the world. Mas é bom não estar em NY agora, certamente. Ufa!

Saturday, July 26, 2008

They ask me where the hell I'm going at a thousand feet per second

A gente sai de férias e se esquece de que vive em uma área ultra-turística de uma cidade que por si só já é turística. Dá nisso. Cheguei de volta a NYC cedinho; o vôo (que agora não vai mais ter acento; ou vai?) até adiantou. Demorado foi na imigração: com a minha sorte, na fila em que eu fiquei teve gente com problema de formulário, gente muuuito enrolada e 2 velhinas em cadeira de rodas. Só faltou o terrorista iraniano. Mas esse, me disseram, está em falta nessa épocas do ano. Depois de uma hora e meia, finalmente indicador esquerdo, indicador direito, foto, carimbo, F-1, I-94, carimba, carimba, grampeia.

As malas ficaram lá, quase abandonadas, já fora da esteira. Quase as últimas, me esperando. Táxi em uma NY de férias num sábado: rápido. Ufa!

Chegando no meu apartamento, aquele tal de desfaz mala, rearruma mala, faz mala, carrega mala, guarda, guarda, guarda, dobra, põe pra lavar etc. Aí, eventualmente bate a fome. O bom é que na minha rua (que nem é tão grande) tem uns 3634829 restaurantes e padarias. Ótimo, penso. Vou descer, comprar uma escova de cabelo (já que esqueci a minha no Brasil) e aproveito e passo para comprar um pão e umas coisinhas pra comer. Depois de 2 meses fora, a geladeira estava vazia, afinal. Ou melhor: estava cheia, mas nada do que está lá dentro é meu.

Só que é verão. Em NY. Na Little Italy in the Bronx. Em um sábado. Próximo à hora do almoço.

Quando pus o pé pra fora, não sabia se o que me sufocava mais era o ar quente ou a multidão-com-cara-de-turistas-do-Connecticut. A rua estava apinhada! Comprar uma focaccia, o que, no resto do ano, é mais-um-ato-corriqueiro-de-uma-Aline-com-fome, hoje foi um suplício. Tudo bem que as coisas aqui são, de fato, muito boas. Mas parcimônia, pessoal!

As pessoas compravam pães e queijos e biscoitinhos e café e azeite, muito azeite, tonéis de azeite (como se as azeitonas - ou os países mediterrâneos - tivessem entrado em extinção assim, de repente). Comprando comidinhas como se o dia do Juízo fosse chegar e elas fossem fazer a última ceia hoje, na Itália.

Tem horas que eu quase entendo os parisieses e sua turistofobia: quando você só quer fazer o que faz todo dia e tem um palhaço bêbado de azeite parado no meio da rua tentando tirar uma foto de uma loja de US$1,99 (como se não existissem outras no mundo) enquanto equilibra três arrobas de queijo parmesão e com poros exalando mascarpone, dá vontade de mandar o cara pro inferno. "Eu só moro aqui e preciso chegar até ali para comprar uma droga de escova de cabelo! Dá licença!!!!!"

Talvez eu entenda isso nos parisienses, sim. Mas eu não sou nova-iorquina. Então, deixa pra lá. Logo isso passa. E o que me consola é saber que em Paris isso nunca passa. Bom pra mim. Em todos os sentidos.

Wednesday, July 23, 2008

Could it be anybody?

Uma amiga minha acabou de tirar o visto para ir passar um tempinho nos EUA, estudando. Dei a maior força para ela. Ajudei na papelada e fiz umas intermediações burocráticas. Ela tinha se programado o ano todo e só faltavam os ajustes finais. E ela precisava de alguém que falasse inglês. E queria me ver, para bater um papo, como fazemos há 19 anos. Apesar de ela trabalhar muito, muito mais horas semanais que a maioria das pessoas, ela fez questão de me ver várias vezes.

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Um amigo me perguntou, todo receoso, se eu poderia trazer duas coisas de NY para ele. Para ele, eu traria até cinquenta. Trouxe as duas; uma ficou de presente. Logo no dia seguinte ao em que eu cheguei, ele queria me ver. Não pelas encomendas, mas porque ele queria me ver de verdade. De quebra, me deu (pela segunda vez) um presente de aniversário dos mais legais da vida. E ele fez questão de me encontrar mais várias vezes, até conseguirmos tirar aquela foto de nós dois, que até hoje não tínhamos.

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Um outro amigo me ligou no dia em que eu cheguei, com uma recepção programada para mim, com vinho, pizza e mais uns convidados. Algumas semanas depois, ele me emprestou o apartamento dele no interior para eu me hospedar enquanto participava de um congresso. E nos vimos a trabalho, como fazíamos antes, e nos vimos por lazer, como raramente acontecia.

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Um amigo meu, que no meu aniversário acordou de madrugada para ir trabalhar, saiu do trabalho e ainda fez Corinthians-Itaquera - Barra Funda para vir me dar um beijo.

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Um outro convenceu o amigo, que estava dirigindo, a sair do outro lado da cidade e vir me buscar, para me pagar uma Guinness. Algumas, na verdade.

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Até o meu amigo mais furão me acompanhou a uma festa de aniversário onde eu não conhecia ninguém além da aniversariante.

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Uma amiga minha me acompanhou em uma ótima viagem, me apresentou montes de pessoas legais, e ainda me levou de volta àqueles dias em que as pessoas na Starbucks sabiam meu nome.

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Tem uma outra amiga que, como eu já contei, me lembrou o Tender Home, me deu flores, um sorriso, e isso me valeu o mundo.

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Porque, felizmente, algumas coisas não mudam tanto.

Tuesday, July 22, 2008

Secrets that could be revealed with knowledge and philosophy

Naquele filme Obrigado por Fumar tem o M.O.D. squad ("Mechants of Death"), o grupinho do mal que se reúne periodicamente para conspirar a favor de suas causas pouco ortodoxas. Eu participo de um grupo bem parecido com esse, aqui em SP. A diferença é que o meu grupo tem 4 membros, e conspiramos sobre os três pilares da Academia: vaidade, inveja e maledicência.

Depois de um ano sem nenhum summit, finalmente nos encontramos para engatilhar novos projetos de Hardcore Metaphysics, que é o nosso objeto principal. Instaurado o mote "Zurück zur Metaphysik", demos continuidade ao nosso projeto de dominação do mundo.

Antes de nossa reunião de hoje, um dos membros do grupo, ao me ouvir falar de umas aspirações de abandonar as minhas pesquisas em lógica em favor de uma coisa mais light, me perguntou se eu tinha dado uma de homem de lata e ido para NY para ganhar um coração. Mas a reunião de hoje parece lhe ter dado um certo alívio, me forçando a voltar a falar dos meu tão-estimados temas de anos de estudo. E, sim, eu continuo a mesma.

Mesmo depois desse hiato enorme sem grandes comunicações, nossas reuniões são tão naturais, que é como se nós tivéssemos nos encontrado pela última vez há uma semana, e não há um ano. Nada de perguntas do tipo "como está NY? está gostando?" etc. Não que eu me incomode com essas perguntas. Mas seria estranho se elas fossem feitas nesse nosso grupo.

Depois da sessão de vaidade, inveja e maledicência e listados os planos de atuação do grupo para os próximos 11 meses, nos despedimos com a maior naturalidade com um "até daqui a seis meses", quando nos reencontraremos e continuaremos a conversa que começou hoje, como se o tempo tivesse parado para esperar que nós voltemos a discutir a philosophia perennis.

Isso comprova uma coisa de que muitos já deveriam ter desconfiado: acadêmicos, assim como defensores do tabaco, das bebidas alcoólicas e das armas de fogo, não têm coração. E sinal maior de que eu encontrei um lugar ao qual eu pertenço é que eu não vejo nada de errado nisso.

Monday, July 21, 2008

Seashell eyes, windy smile

Muitos anos atrás, em idos de 2000, eu tinha uma amiga. Uma menina que estudava comigo, na verdade. Ela era quase dois anos mais velha, mas estudávamos na mesma classe. Quando estávamos no 3o. ano do colegial (que ainda se chamava colegial), fizemos uma tal orientação vocacional (aliás, furadíssima, porque fiz voto de pobreza e passei beeem longe de Administração e Comércio Exterior, minhas supostas "vocações") no colégio onde estudávamos. As reuniões com as psicólogas eram à tarde, nos deixando uma hora e meia para almoçarmos.

Isso era em Perdizes, que tem bilhões de restaurantes a quilo lotadíssimos por causa da Pontifícia. Quando saíamos da escola, na hora do rush dos quilos, tínhamos que procurar algum lugar alternativo para almoçar e evitar filas. Um vez, essa menina me convidou para irmos almoçar em um restaurante ali na R. Homem de Melo, o Tender Home.

O Tender Home foi um dos restaurantes (junto com o Carlota e o Carlino) que educaram meu paladar. Lá comíamos coisas ótimas, como ravioli de figo com molho de gorgonzola e noz-moscada, e, de sobremesa, o melhor cheesecake do mundo (o melhor! E olha que eu já fui à Cheesecake Factory e afins), ou crème brûlée. Durante esses almoços semanais por cerca de três meses, fomos nos tornando amigas.

Mas, obviamente, dali a seis meses fizemos vestibular e acabou-se a brincadeira. Pois é pessoal, nada de historinha muito fofinha por aqui! Fui para a Pontifícia e ela também, mas raramente nos encontrávamos, pois fazíamos cursos diferentes, em horários diferentes. Quando nos víamos, era só aquela coisa "oi-tchau". E logo no nosso primeiro ano de Pontifícia, o Tender Home fechou e deu lugar a uma ótica. Nunca entendi por que, já que era relativamente bem movimentado. Talvez fosse caro demais para a região e para competir com os quilos, sei lá. Mas tive ótimas conversas lá, entre noz-moscada e chá de hortelã. E a chance de eu reecontrar aquela amiga de anos atrás para alguma conversa ia se tornando cada vez menor, porque já mal nos falávamos e nem tínhamos a desculpa de irmos "àquele restaurante... Lembra?"

Pois no ano passado, poucos meses antes de eu me mudar para NY, finalmente a reencontrei e resolvemos concretizar aquelas conversas de "vamos almoçar um dia desses". Como as duas, cada uma por seu motivo, continuavam na Pontifícia (mesmo depois de seis anos e meio), fomos almoçar ali perto, em um daqueles restaurantes genéricos de Perdizes. Não falamos muito dos "good ole times" (whatever that is supposed to mean) já que nenhuma fazia questão, mesmo. Mas depois de quase sete anos, apesar de cada uma ter ido para um lado na vida e sermos completamente diferentes, ganhamos novas coisas em comum: gosto pelos mesmos livros, pesquisas em uma mesma área (embora com abordagens diferentes) e uma paixão pela Áustria. Lindo, né? É, mas aí, depois de nos vermos umas 3 ou 4 vezes, eu fui embora para NY.

Mas esse ano, passando as férias em São Paulo, me encontrei novamente com ela. Algumas vezes, na verdade. Em uma delas, fomos almoçar na Vila Madalena (para, logo depois, fazermos a coisa que ela mais odeia, e que é um dos meus passatempos preferidos: experimentar roupas em lojas). Ela sugeriu me levar a um restaurante que ela adora, o Florinda.

Foi uma tarde ótima, porque ela é dessas pessoas que me deixam muito para cima. Ela tem o sorriso mais feliz do mundo (brinco com ela com aquela música da Mary Tyler Moore, "you can turn the world o with your smile") e "cabelos de Gisele" como costumávamos dizer oito anos atrás.

Depois de um longo almoço, com direito a entrada (bruschetta de brie com mel), prato do dia (gnocchi de pêra com molho de gorgonzola) e chazinho (de hortelã), tinha que falar uma última coisa. Pensei muito, porque tem umas lembranças que a gente guarda tanto e aí, quando percebemos que aquilo não faz diferença para as pessoas, ficamos frustrados. Mas arrisquei:

- Nossa, sabe o que essa comida me fez lembrar muito? Você vai me achar maluca, talvez, por estar me lembrando dessas coisas, mas essa entrada e esse prato do dia me lembraram muito do Tender Home, sabe? Aquele aonde a gente ia e...
- Mas é claro! E foi exatamente por isso que eu te trouxe aqui! E, para falar a verdade, não sabia se você ia lembrar, mas esse tempo todo, desde que a gente chegou, estava esperando você falar isso... Ah, que bom!

Não sobrou nenhuma foto do Tender Home (nem no Google Images!) para contar a história, mas tem essa foto nossa, de oito anos atrás, para ilustrar.

Sunday, July 20, 2008

And so it is


Acho que devia ter uns dez anos que não ia ao Teatro Municipal. Acho que exatamente dez anos, inclusive. Desde a última e traumática vez em que perdi metade de um ballet porque fiquei presa no maldito banheiro, quando a fechadura quebrou pelo lado de dentro. Maior foi o meu pânico porque aquela era uma era pré-celular (pois é, sou antiga, pessoal) mas não vale a pena contar como essa história aí acabou (essa é outra história e deverá ser contada em outra ocasião).

Hoje voltei por um bom motivo: assistir à apresentação da Youth Orchestra of the Americas. Eles fizeram uma única apresentação em São Paulo, com Gershwin, Ravel e Rachmaninoff no repertório. E o bom do Municipal, como diria meu antigo professor de lógica, é que é "baratinho; mais barato que um doce."

Obviamente não fui "só porque era barato". Nem chega a ser lá tão barato. Fui, dentre outros motivos, para prestigiar minha amiga Camila, que toca clarinete na YOA. Para completar, era uma soirée beneficente, e a coisa toda começou com o coral da Unibes cantando Edelweiss. Depois de sobreviver à Noviça Rebelde (era mais legal quando eu era criança e quando era cantada pelos Von Trapp), Gershwin obiamente foi ótimo (não que Ravel e Rachmaninoff não tenham sido, mas é aquele velho dilema do pessoal - maldita criançada! -que não cala a boca no teatro e tal).

Depois das apresentações, o maestro Carlos Miguel Prieto voltou para o bis: um quase-samba que eles mesmos compuseram. E dançaram. Sim, o pessoal da orquestra. É claro que tinha aquele grupinho de americanos e canadenses que, bem que tentaram, mas tinham tanto groove quanto eu, isto é, um gingado digno de Florian Schneider (outra referência das antigas, vixe...).

Após o concerto, fui até o palco e depois ao camarim, procurar a Camila. Tinha avisado virtualmente a ela que eu tinha conseguido comprar os ingressos e que iria vê-la. Mas como a YOA já está em turnê há um tempão, ela não viu minha mensagem a tempo. Tanto melhor: ficou feita a surpresa (aí na foto ao lado - ela é a mais bonita, óbvio!).

Da série mundo-pequeno-que-só-tem-300-pessoas, fica o fato de que, em exatamente uma semana, depois de uma rápida visita à irmã dela, estarei na cidade onde a Camila coincidentemente passou a adolescência e começou sua mega-formação musical.

Saturday, July 19, 2008

Spitting games (or, how Apple will never stop screwing you)

Passei o Springbreak e a Páscoa na Flórida, como vocês bem puderam acompanhar aqui e aqui. O Respectivo viajou para lá alguns dias antes que eu. Eu ficaria uns dias a mais em NY, para resolver umas coisinhas e deixar ele ter quality time com a família antes de eu chegar para conhecer o pessoal todo.

Como eu já disse, conhecer a família não me preocupa muito, em geral, porque se há um fato inquestionável sobre mim é que à primeira vista eu sou adorável (wink, wink). O momento pânico aconteceu na semana anterior, quando ele estava fazendo as malas para a viagem e eu ofereci:

- Olha, se você quiser que eu leve alguma coisa depois, na minha mala, é só deixar comigo e eu-
- Ah, então. Na verdade, é capaz de eu acabar me esquecendo de alguma coisa. A gente tinha uma chave extra, mas o J. perdeu, eu acho. Ia deixá-la com você e tal, mas aí não vai rolar...
- Não, tudo bem. Eu quis dizer que se você quiser levar alguma coisa e não couber na sua bagagem, deixa comigo que eu levo depois.
- Sim, eu entendi. Mas acho que não. Acho que cabe tudo. Mas eu tinha pensado nisso de deixar a chave e-
- Ah, aliás, eu tinha pensado em levar alguma coisa para seus pais e sua tia e-
- Não, então, mas sobre a chave -
- Ah, deixa. Depois a gente vê... Então, sobre seus pais-
- Não, então. De qualquer forma, quando eu for embora, vou deixar minha chave com você, porque se eu me esquecer de alguma coisa, você vai lá e pega pra mim...
- Tá bom, tá bom. Mas então, seus pais e sua tia...

Eu claramente não queria saber de lance nenhum de chave! Primeiro que eu já não gosto de ficar com chave da casa de ninguém, muito menos de namorado. Conhecer a família e ficar com a chave em uma mesma semana? Eu mal tinha digerido o fato de que a gente estava namorando e, de repente, já vem o pacote completo? Em meio a flashbacks do mal, um pequeno surto de pânico.

Felizmente, uns dias depois, ele parecia ter esquecido a idéia toda. Ou pelo menos fingiu, após as mudanças bruscas de assunto terem deixado claro que eu não queria saber de chave nenhuma (= commitment demais). Ufa!

Um pequeno stream of consciousness: Algumas semanas antes, depois de ele ter constatado que seu mega-super-ultra-state-of-the-art iPod não teria conserto (por razões óbvias = é fabricado pela Apple) e xingado até a última geração do Steve Jobs, eu - muito adorável - emprestei para ele meu peso morto iPod, que estava na gaveta, praticamente nunca usado, visto que meu Upstage é muito mais eficiente (e, alas, também funciona como telefone!).

Eis que depois de uns 2 dias usando todos os 2GB (uau!) do meu iPod, na hora de embarcar para a Flórida, ele deu falta do maldito aparelhinho. Procurou, procurou e nada. Ele não sabia se tinha perdido na academia, no bolso de alguma roupa ou em algum canto do apartamento. "Deixa pra lá. Quando a gente voltar você procura com calma", sugeri.

Fui andando com ele até a estação de trem, para fingir que ajudava a carregar as coisas. Ele ainda revirou as malas e nada do meu iPod. Logo antes de o trem chegar, ele teve a brilhante idéia:

- Toma. Fica com a minha chave. Aí, quando der, antes de você ir me encontrar, dá uma passada no meu apartamento e vê se você consegue encontrar seu iPod.
- ...

Ou seja, não consegui escapar da maldição da chave. E tudo por causa do iPod. Ótimo!

No dia seguinte, depois de ir à manicure e passar na Payard para fazer comprinhas de ovos de Páscoa, passei lá no apartamento dele. Com a devida permissão (e pedido, na verdade) dele, revirei vários cantos. E nada do meu iPod. Sala, quarto, cozinha, bolsos de jaquetas e calças...

Se não queria ficar com as chaves, certamente não queria ter que revirar nada de ninguém. Tem coisa pior? Qualquer outra pessoa poderia ter visto nisso uma super-oportunidade: revirar a vida do namorado, atrás dos mais obscuros segredos. Pois é. Eu não. Só entro em pânico e evito olhar para qualquer coisa que não seja da minha conta. Mesmo porque tem coisas que a gente não deveria saber sobre as pessoas. E ponto.

Só não pude evitar atentar a um detalhe: um porta-retratos gigantesco (estava em cima de um tipo de criado-mudo: não dava pra não ver) com fotos da família. Engraçado como já tinha estado no quarto dele algumas vezes e nunca tinha reparado no porta-retratos! Acho que não estava lá antes. Não, não estava. Eu teria notado. Parei e olhei por um instante: queria ter uma idéia de como eram as pessoas que eu conheceria em dois dias.

O bom é que eles não pareciam nem um pouco ser uma daquelas dysfunctional families. E que, em dois dias, aquelas chaves já estariam fora das minhas mãos.

E isso tudo, para mim, é a prova cabal de que a Apple é, sim, culpada por boa parte dos grandes males e angústias da humanidade. E que mesmo quem não usa os malditos produtos deles ainda terão suas vidas atrapalhadas por alguma merda relacionada. And there's no escaping it.

(E, para quem ficou se perguntando se meu iPod foi encontrado, não se preocupem; ele foi para um lugar melhor: um mundo habitado por isqueiros, guarda-chuvas e pés direitos de meias.)

Friday, July 18, 2008

Would YOU buy a car without taking it for a test drive?

Tudo bem que a Fordham é uma faculdade católica. A Pontifícia, onde passei seis anos e meio (entre graduação e mestrado), também é. And yet.

Talvez eu já tenha dito isso por aqui, mas o respeitadíssimo departamento de filosofia da Fordham deve ter, atualmente, uns setenta alunos no total, dos quais apenas sete mulheres. E eu sou uma delas. E viva! Detalhe sobre as outras: duas, apesar de não serem freiras, vivem como se fossem; duas são casadas e têm suas vidas próprias; uma delas está em fase final de dissertação e só aparece duas vezes por ano; e a outra é uma aluna nova, que eu ainda não conheci. "Civil", só eu.

Desde os tempos de Pontifícia e de trabalhos em metalúrgica (sim, eu já trabalhei em uma metalúrgica e minha carteira de trabalho pode comprovar!), já estava acostumada a trabalhar com grupos predominantemente masculinos, e isso nunca foi problema. Na verdade, até prefiro. Mas isso é outra história, e deverá ser contada em outra ocasião.

Mas na Fordham rolava um lance estranho. Uns caras esquisitos, que pareciam que não tinham aprendido a conversar. Principalmente quando a interlocutora era eu. Estranho. Muito estranho.

Depois fui descobrindo umas coisas que se tornaram bem reveladoras: grande parte desses 70 alunos vem de faculdades protestantes ultra-conservadoras e tradicionais. Uma delas é famosa por ter recentemente liberado, no bailinhos, que os meninos (aka homens de 21, 22 anos!) dançassem com as meninas (mulheres de 21, 22 anos!), desde que se mantivessem a uma distância do equivalente a duas Bíblias. Hein?

É isso aí. Duas Bíblias. Isso já deve explicar bastante coisa sobre o comportamento sequelado do pessoal, mas vamos entrar em mais detalhes? Sim, adoramos detalhes. Especialmente aqueles bem sórdidos.

Pois aqui não vai haver detalhes sórdidos porque o pessoal é muito, muito WASP (aka white anglo-saxon protestant) e o que falta na vida deles é justamente sordidez. O mínimo de. Depois de fazer uma pesquisa sub-liminar à la Alfred Kinsey (só que ao contrário), descobri que o departamento de filosofia da Fordham deve ter - em um contraste exorbitante com o mundo fora dos portões da universidade: um mundo de chicanitas que se tornam mães aos 14 anos - o maior número de homens virgens acima de 25 anos do estado de NY.

E não é que o pessoal seja feio, ou que a falta de mulheres no departamento cause esse tipo de situação: grande parte desses "senhoritos" têm namoradas de longa data e alguns estão noivos. Vai entender.

Pois é, pessoal, e vocês achavam que a vida na América era fácil? Nada disso. Porque mesmo a burocracia sendo bem menor em solo ianque, ainda é mais fácil você se livrar de um leasing de um carro ruim que conseguir um divórcio. E viva as concessionárias!

Wednesday, July 16, 2008

Neighborhood #3 (Power Out)

Desde que encontramos acidentalmente a vizinha do Respectivo no Roberto's, na sexta-feira anterior ao dia das mães, eles passaram a se falar com mais frequência. Isso porque o roommate dele estava para se mudar para fora do Bronx (porque casou e agora vai ter uma vida real) e o roommate dela também estava indo para outro apartamento. Como nenhum dos dois estava disposto a mudar para outro prédio e ambos precisavam dividir o apartamento com alguém, surgiu a idéia de os dois dividirem o apartamento.

Depois de o Respectivo me perguntar, com todo o cuidado, se eu "aprovaria" que ele morasse com ela (- what do you mean, if I approve that you live with her? Besides, it's up to you to choose your roommate, I've got nothing to do with that. - I don't know, because she's a girl. I mean, I just wanna know if you're ok with it. If not, I can always look for another roommate... - Ok, now you're just being silly. Of course I'm ok with it!), ele foi visitar o apartamento dela e fechou negócio, após confirmar, novamente (wtf?!), se eu concordava.

Algumas semanas depois, fomos ao tal BBQ no telhado, que ela ia fazer para comemorar o noivado. Aí, já fiquei conhecendo o novo apartamento do Respectivo, bem mais limpinho e arrumadinho que o outro - e apenas dois lances de escada mais longe do meu apto. e da faculdade.

Quando chegamos lá, ela, que é vegetariana, estava preparando um macarrão e, como ninguém havia chegado ainda, pediu nossa ajuda para montar a churrasqueira (aquelas churrasqueirinhas americanas, redondinhas, com uma tampa, que mais parecem churrasqueiras para acampar). Depois de vermos quantas partes, porcas e parafusos teriam que ser encaixados e enroscados decidimos, por avaliação de habilidades DIY, que eu ficaria encarregada da chave de fenda, enquanto o Respectivo começaria a mudança trazendo algumas camisas e casacos, lá do apartamento antigo, para já deixar no novo armário.

Não é que ele seja completamente inapto para as tarefas DIY: o lance é que, no fundo no fundo (acho que nem tão no fundo), eu adoro brincar com chaves de fenda. Enquanto as meninas que moram comigo chamam o pessoal de facilities até para trocar lâmpadas, além de trocá-las eu mesma, ainda desentupo ralo, privada, conserto cabos, mato insetos (não baratas, porque não temos baratas lá - mas, se tivéssemos, mataria!) e afins. Tudo isso, é claro, desde que eu esteja munida de minha máscara e minhas luvas amarelas de látex por cima das luvas de vinil. Porque, afinal de contas, eu sou menina.

Outro indício disso é que, depois que a churrasqueira estava montada, tínhamos que levá-la lá pra cima, para o telhado do prédio, por uma daquelas escadas de incêncio, que ficam presas na parede. Isso, o Respectivo fez (eu normalmente não faria - sou desastrada demais para carregar coisas - e, de salto alto, como estava naquele dia, nem pensar!). Mas, porque o telhado é - paradoxalmente - bem "roots" e, ao lado da escada, tinha uma placa de metal meio levantada, ele cortou a mão. Achei que não fosse nada, mas, como ele é tão desastrado quanto eu, conseguiu fazer um corte gigantesco, que pingava sangue. Coisa horrível.

Ele pensou em ir ao apartamento antigo e procurar um antissético e um band-aid, mas, antes mesmo de ir, desistiu, porque sabia que a busca seria em vão, já que nunca tinha essas coisas. A Linda, a nova roommate, foi procurar uma caixa de primeiros-socorros, onde geralmente guarda essas coisas.

Antes de qualquer um dos dois esboçarem reação, já tinha sacado da minha bolsa um tubinho de álcool para desinfecção e um band-aid.

Os dois olharam para mim, espantados. "Mas por que é que você carrega álcool para desinfecção e band-aid na bolsa, quando você só vai até a esquina de casa?"

"Porque sou menina", respondi.

(Um remendo para quem não entendeu e pode - a partir de detalhes e não do conjunto da obra, como seria louvável - me chamar de burra: "antissético" é a nova ortografia, pós-reestruturação da língua portuguesa, que começou a ser utilizada em 2008. Aos poucos, vou aderindo.)

Tuesday, July 15, 2008

La Bohème (or, September shirt)


Sexta-feira, 21 de setembro de 2007. O Yom Kipur começou ao pôr-do-sol. E eu, na Torre de Marfim jesuíta, não tive minha aula de Teorias Morais Medievais Tardias. Não por causa do Yom Kippur, é óbvio. Mas a coincidência foi engraçada.

Bom, como o Derek havia sugerido algumas semanas antes, fomos ao Lincoln Center assistir à ópera La Bohème. Foi toda uma galera: além das minhas roommates, várias outras pessoas que moram no meu prédio.

Nos arrumamos e saímos, todos devidamente vestidos para a ópera. Me muni de saia e salto alto. A Mahlika foi de vestido longo. O Chris, de calça social e camisa. NY não chega a ser Paris, mas depois das 19h convem estar decentemente vestido.

Primeira parada, Brooklyn Diner, para jantarmos. É lá que tem um cachorro-quente gigantesco, e, apesar de lotado, vale a visita. É um diner nova-iorquino comum, só que com aparência mais limpinha e esperas enormes, dependendo do dia e horário. Para os turistas, vale a pena.

Saindo de lá, andamos poucos metros e chegamos no Lincoln Center, onde encontramos a Mariana e a Doris, que estavam trazendo os ingressos. A Mariana também estava toda arrumada. A Doris, como eu temia, de bermuda, t-shirt e chinelos.

Quando a Mahlika e eu saímos de casa, a Doris nos olhou, disse que estávamos muito elegantes (que a Mahlika parecia uma estrela de Hollywood), e perguntou se precisaria se arrumar para ir à ópera, porque achava que iria de bermuda e camiseta. A Mahlika disse que as pessoas geralmente se arrumam para ir à ópera, sim. Eu completei (grande erro!), dizendo que ela não precisava se arrumar, mas que seria legal, porque é assim que as pessoas fazem.

Achei que com esses comentários e nos vendo sair de casa com maquiagem e salto alto, o bom senso ia bater e ela ia se arrumar. Como todas as sutilezas em relação à Doris, o carregamento de informações multimídia que demos a ela não fizeram o menor efeito. E lá fomos nós à ópera, acompanhados da chinesinha com um look hobo acidental.

Como somos pobres grad students, compramos aqueles assentos com partial view. Depois do primeiro ato, conseguimos mudar para o primeiro andar, onde ainda havia alguns (poucos) assentos vazios, e ficamos muito melhor acomodados.

La Bohème não é das minhas óperas preferidas, apesar de ser muito melhor que sua versão hardcore e tosca contemporânea, Rent. O terceiro e penúltimo ato ainda é o melhor (apesar de, a essas horas, eu já não estar em um estado de total consciência). Ao final do quarto ato, eu já não me aguentava de sono. Também, já eram quase umas 23h, acho.

Pegamos a van da faculdade de volta para casa. Eu, exausta, e com um sábado de trabalho acadêmico (que não rolou por conta do convite que recebi para ir assistir a um jogo de futebol) pela frente.

Looking on the bright side: confirmei que, de fato, prefiro ir assistir a concertos que a óperas (ballets, jamais!), e aprendi que, da próxima vez que quiser fazer a Doris entender algo, é bom que eu seja clara e incisiva.

(a foto é do Brooklyn Diner já no inverno, em dezembro ou janeiro, quando eu voltei lá com meus pais, num frio congelante. )

Um P.S. de alcance pequeno: É claro que, para completar a ironia, apesar de eu mesma não ter comido o hot dog, estava usando sapatos e bolsa de couro.

Monday, July 14, 2008

R.I.P. (or, say hello to the angels)

O Departamento de Filosofia lá da Fordham é bastante... socialmente ativo, digamos. Ao contrário do que seria o óbvio, é o departamento mais animado da faculdade, com mais festinhas e afins (é claro que a universidade é jesuíta, o que faz com com a expressão "socialmente ativo" deva ser tomada com a maior parcimônia, and yet).

Na verdade, como não somos burocratas, organizamos simpósios, colóquios, conferências e coisas do gênero acrescentando sempre uns comes e bebes (bebes! muitos bebes!) no fim, para podermos fazer algumas refeições decentes no ano. Afinal, somos pós-graduandos em filosofia e fartura não faz parte do grupo sócio-econômico no qual nos encaixamos (aka desempregados).

Um dos maiores eventos do ano para nós é o jantar de Natal. Porque significa que o winter break está chegando e é nossa oportunidade de comer decentemente (e estocar para o inverno, tipo urso mesmo) e ver nossos distintos professores beberem além da conta.

O jantar de Natal de 2007 foi no dia 14 de dezembro. Estava longe de ter terminado meus trabalhos do semestre (entreguei o último às vésperas do Natal), mas fui espairecer assim mesmo.

Chegando lá, aquele socialzinho básico e tal, me servi e me sentei com um pessoal mais conhecido. Ocupamos duas mesas grandes, e fomos fazendo um rodízio de quem conversava com quem. Nesse dia, conheci o Dr. D., tentei - sem nenhum sucesso - brincar com um dos filhinhos fofos do Dr. J., e conheci o Father W. Norris Clarke.

Para quem não é nerd de filosofia que nem eu, isso pode não fazer diferença, mas só para explicar como isso foi um turning point na minha vida, algumas informações relevantes sobre ele: Father Clarke, um dos maiores especialistas em filosofia tomista do mundo, durante os vinte minutos em que ficou batendo papo comigo, me ensinou mais sobre Tomás de Aquino do que eu tinha aprendido até aquele dia (e olha que tive ótimas aulas de Filosofia Medieval, com outro mega-scholar).

Na verdade, eu não fiquei conversando com ele exatamente por livre e espontânea vontade: ele veio conversar com os alunos, alguém me apresentou e ele gostou de mim. Enquanto isso, os meus colegas me deixaram numa cilada: foram saindo da mesa, de fininho, para aproveitar a festa, até que eu fiquei sozinha com o Fr. Clarke. Isso porque ele, como um bom velhinho-bem-velhinho repetiu várias vezes a mesma história, incluindo uma que envolvia o Papa João Paulo II e as correspondências filosóficas que trocavam.

Depois que ele se apresentou para mim pela terceira vez, eu disse que sabia quem ele era. Já tinha lido textos dele no Brasil. Ele ficou surpreso e me perguntou por que eu tinha interesse em Filosofia Medieval, já que, de fato, estudo Fenomenologia. Expliquei que gostava bastante de Tomás de Aquino e que o texto que garantiu minha aceitação na Fordham foi justamente um texto em que eu analisava o texto de Tomás de Aquino sobre o Tratado sobre a Trindade do Boécio. Pronto. O velhinho começou a falar sem parar sobre isso. Me deu uma aula fascinante.

Além disso, me contou sobre a vida jesuíta, e como começou a dar aulas na Fordham em 1945 (!!) e tinha se tornado professor emérito em 1985, e como sempre morou ali, no campus, no Loyola Hall.

Depois de um tempo, o pessoal voltou para a mesa, para me "resgatar". O Respectivo se desculpou, por ter me deixado lá, tendo que conversar com o velhinho. Na verdade, eu agradeci, porque um dos motivos que me levou a, de fato, ir para a Fordham foi o fato de eles terem um programa Medieval forte e uma das pessoas que eu mais queria conhecer (e achava que nunca teria a oportunidade) era justamente o Fr. Clarke (a outra é o Fr. William O'Malley, ams esta é outra história, e deverá ser contada em outra ocasião).

Pois há pouco mais de um mês, no dia 10 de junho passado, Fr. Clarke morreu, já aos 93 anos, no St. Barnabas, vítima de um derrame. Heartbreaking. Pelo lado bom, fiquei contente em ter ao menos tido a oportunidade de conhecê-lo e conversar de verdade com ele, coisa que até gente que está no Departamento há mais tempo que eu nunca fez.

Graças à pseudo-maldade planejada pelos meus colegas, ganhei alguns bytes a mais de sabedoria e uma história para contar.

Sunday, July 13, 2008

Jabá

Ainda com flashbacks de Paraty, uma das coisas mais diferentes que vi por lá foi o trabalho do Samir Mesquita. Mas o porquê vocês vão ter que ler aqui.

Saturday, July 12, 2008

I took a long hard look

Já contei a minha primeira experiência assistindo a um jogo de baseball ao vivo, no Shea Stadium, e minha primeira vez assistindo a college football em um bar. Faltou contar minha primeira experiência com futebol americano ao vivo. Nos EUA, o pessoal liga muito pouco para o futebol americano profissional, da NFL. O lance mesmo é o futebol americano universitário.

Dia 8 de setembro de 2007 estava lá eu, recém-chegada para minha vida na América quando, voltando da biblioteca, vi que estava rolando alguma coisa no Coffey Field, campo de futebol americano da faculdade. Jogo: Fordham vs. Albany.

Cheguei no meio do jogo. Acho que no início do segundo quarto, na verdade. Fui sozinha mesmo, já que já estava por lá e queria saber do que, afinal, se tratava essa coisa toda de college football.

Tinha o pessoal de vinho, maroon, que virou a cor oficial da Fordham depois da briga com Harvard, e o pessoal de amarelo. A torcida toda bonitinha, comportada. Tinha um comentador e umas câmeras, porque lá os esportes universitários são transmitidos em rede nacional, na TV a cabo. A bandinha tocava hits de rock em versões interioranas, com trombetas, tambores e tamborins.

Fiquei lá, tentando entender o que estava rolando. Entendi pouco, muito pouco, mas o suficiente. Depois de uma hora e meia ou duas horas, ainda sem previsão de por quanto tempo mais a coisa se prolongaria, resolvi ir embora, acho que no meio do último quarto (mesmo porque já estava anoitecendo e eu moro no Bronx, né?!). O jogo estava apertado, talvez empatado, até - não lembro. Não me importei em conferir o resultado final no dia seguinte, mas não deve ter sido tão ruim, porque no final da temporada, a Fordham (pela primeira vez) foi campeã da liga em que ela joga.

Não, o time da Fordham não é bom: é que ele está na liga das piores escolas, i.e. as escolas que - como a Georgetown - têm alunos inteligentes, mas sem grandes vocações esportivas. Nada de Notre Dame ou Ohio State na nossa liga. Em esportes, somos os melhores dos piores. And damn proud of it!

(A foto tosca foi tirada com o celular durante o jogo.)

Friday, July 11, 2008

Andy Warhol, silver screen

Saldo da minha aparição na FLIP: algo de 15 minutos de fama. [alguns minutos extras e jabás por vir. aguardem!]

Por enquanto, uma breve menção na Revista Paradoxo: Atraída pelo sucesso do escritor [Neil Gaiman], a estudante de Filosofia Aline Medeiros [sic], 25 anos, enfrentou a fila para presentear amigos com o autógrafo do escritor. “Ele é uma pessoa muito famosa”, disse.

Pois foi como eu disse por aí: com tanta gente fantasiada de Sandman e derivados, a pobre repórter foi escolher logo a mim, de bermuda jeans, camiseta branca e tênis, na maior normalidade possível, para entrevistar a respeito do Neil Gaiman?! Logicamente, a edição colaborou para que eu parecesse uma imbecil, stating the obvious ao dizer que "ele é uma pessoa muito famosa." (WTF?!)

Fato é que ela me perguntou por que eu estava ali. Disse que foi para pegar autógrafos em livros de amigos (Respectivo e Das, in fact). Como ela insistiu na pergunta, a saída foi confirmar o óbvio à la paraquedista de FLIP e dizer que, ué, ele é, tipo assim, suuuper famoso, então, vim ver! Deu no que deu. Mas - para a inveja de muitos - peguei pouco mais de uma hora de fila e saí com Coraline e Good Omens autografados. Os destinatários dos livros, é claro, me devem um rim cada por isso.




Em momento anterior, ainda no início da FLIP, na quinta-feira, enquanto estava no café ao lado da Tenda dos Autores com a Cassy e a Bia, o fotógrafo Rodrigo Almeida Prado, talvez achando que eu tinha jeito de rica e/ou famosa (too bad eu não ser nem uma coisa, nem outra!), perguntou se podia tirar uma foto minha para o Portal Onne da Cesar Giobbi, espécie de Audi Magazine online (porque revista Caras é coisa de wannabe, pessoal!). - Mas é claro que pode!

Alguns cliques depois, fui parar na capa de um dos álbuns da FLIP no site (ver acima), ao lado de João Moreira Salles e Elisabeth Roudinesco, além de dividir a página principal com outros globais.

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Um P.S., depois do olho clínico da Cassy: no site da Oi, site da cobertura oficial da FLIP, nos flashes que passam durante a entrevista da Adriana Lunardi, lá apareço eu, novamente, pegando autógrafo no (ótimo) livro da Vanessa, para meu primo.




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E o pessoal lá nos EUA costuma dizer que os povos latinos se arrumam demais; se empetecam até para ir ao supermercado. Eu costumo brincar que é hábito, já que eu vivo nessa coisa de nunca saber quando serei flagrada por um paparazzo. Em NY, pode até ser piada. Mas, por aqui, como eu só fui de fato notar neste meu breve retorno - inclusive quando descobri que a minha vida pessoal tem interessado mais às pessoas que minhas aventuras nova-iorquinas - é sempre bom ficar de olho em quem está por perto. No meu exílio, virei muito mais "gente" que imaginava!

Better in Manhattan

Das coisas que me atraem de volta a NY:

- a Broadway, lá na pontinha sul de Manhattan, na região da Houston St.
- o pessoal do meio-oeste que vive lá (já que os nova-iorquinos são detestáveis)
- poder pegar o metrô civilizadamente 24/7
- poder encontrar quase todos os tipos de comida finas e orgânicas no Wholefoods
- encontrar quase as mesmas coisas, mas pela metade do preço, no Trader Joe's
- ter uma enorme gama de entretenimento à disposição
- livros baratos em toda parte
- táxi baratinho
- Babycakes
- sapatos Steve Madden e BCBG a preços acessíveis
- Guinness em qualquer bar meia-boca
- performances no metrô (não nas estações, porque isso é coisa de pobre; mas dentro dos trens do metrô)
- comida mexicana boa e barata em toda esquina
- a facilidade de se encontrar um endereço seguindo a ordem numérica das ruas
- ter, à minha disposição, uma das melhores bibliotecas dos EUA (à frente das bibliotecas de Harvard, Yale e Columbia) e que, obviamente dá um pau nas bibliotecas de quermesse da PUC-SP e nas bibliotecas de mangue da USP

(to be continued...)

Thursday, July 10, 2008

This month, day 10

Será que só eu penso no mascote das Olimpíadas de Moscou cada vez que ouço falar no McMafia?

E será que, novamente, sou só eu que acho engraçado que a nova CPMF se chame CSS? (e que ambas sejam definidas como "mais do mesmo; que droga!"?)

Dead poets society (or, put the book back on the shelf)

Que me desculpem os poetas e defensores de Rimbaud em geral, mas poesia é um saco. Não que eu não goste de poesia, pois acho que há grandes virtudes em Gide, Drummond e Yeats, mas a poesia é válvula de escape de maluco.
Na última noite (de verdade) da FLIP, durante a premiação da Off Flip, já estava ficando irritada com os poetas, que "fazem da vida poesia" (ah, pessoal! Vamos arrumar outra coisa de que fazer poesia, faz favor!). Das mais baratas possíveis. Saindo de lá, durante uma peregrinação em busca de um bar em Paraty que se dispusesse a servir alguns anônimos, escritores e aspirantes a escritores acompanhados de Marcelino Freire, fomos parar no Lado B, que, sim, é um bar.
E eis que lá começa um lance de declamações de poesia. O primeiro declama um poema de Drummond. O segundo, Pessoa. Até aí, tudo vai razoavelmente mal. Até que uma moça (moca, não – senhorinha!) resolve ler um poema de autoria própria. Uma coisa que tinha liberdade e borboleta. E ela começou a atuar a liberdade e a borboleta. Depois, vem um repentista meio rapper, rimando todas as palavras terminadas em “ão” que conhecia. Dor. Uma dor que não rima com amor, nem com mais porcaria nenhuma. Uma dor no fundo dos tímpanos, só. Daquela que dá desgosto e causa refluxo de qualquer caipirinha de abacaxi feita com a paratiense favorita do Xico Sá, Maria Izabel.

Now that your coffee is growing cold, oh, all of the customers look so old

Fora o tombo descrito no post abaixo, o passeio em Paraty foi bom. Mas como as coisas comigo nunca são 100% boas, compartilharei um pouco do meu desespero paulistano com você, pobre pessoa que parou para ler este post.

Imagine você estar parado. Para sempre. Quase um coma. Aquela coisa de fazer um esforço mental enorme para mexer ao menos um dedinho da mão e... nada. Aí, você não sabe se o mundo, de repente, vai se esquecer de você e resolver doar seus órgãos, já que você não responde a estímulos. Almoçar em Paraty é mais ou menos assim. Não genericamente falando, mas num sábado de FLIP, certamente.

Depois de cabular a palestra do Neil Gaiman para (decisão sábia!) entrar na fila bem cedinho e pegar autógrafos para um amigo e para o Respectivo (para mim? Então, ainda não... mas quando meu diploma oficial de nerd chegar eu aviso), às 14h fomos almoçar: a Cassy, a Bia (amiga dela) e eu. Encontramos um restaurante italiano com uma espera pouca. Era lá mesmo. Para referência futura, o restaurante era o Corto Maltese.

Demora para anotarem os pedidos, demora para trazerem as bebidas, demora para trazerem pratos e talheres, demora para trazerem a salada. A comida (massa bem boa, por sinal - considerando que estávamos em solo fluminense), nem se fala! Achamos que nem vinha mais. Ao perguntarmos para a mocinha se eles haviam esquecido nossos pratos, ela respondeu:

- Não esquecemos, não. É que deu um probleminha no gás, mas já tá vindo.

"Probleminha no gás" aka acabou o gás do botijão e alguém teve que fazer aquele longo processo de fecha-válvula-tira-o-botijão-põe-o-outro-botijão-e-abre-a-válvula, que deve levar em torno de 3 minutos para um paraplégico.

O pior foi depois da comida. Retiraram metade dos pratos e talheres e sumiram, garçons e dono do restaurante. Em clima literário, foi um momento meio Beckett. Se bem que eu acho que Godot chegaria antes que nossa conta. Fomos criando raízes no chão do restaurante. Parecia que nunca, nunca!, íamos conseguir sair de lá. O céu lá fora foi de ensolarado para cinza-azulado, de fim de tarde. A coisa já havia passado do tom de pegadinha-sem-graça para desespero-teatral-puro-e-simples-quase-Antunes-Filho.

Depois de duas horas e meia (!!), com muito custo, conseguimos pagar e ir embora. Sorte ninguém ter notado a situação e escapado de lá com meu coração, um par de rins e um par de córneas.

(A placa da foto, ironia do destino, estava na entrada do restaurante...)

Wednesday, July 9, 2008

Battle wounds

Cinco dias em Paraty. Diversão de nerd: aproveitar o tempo livre (??) de férias para assistir a palestras de literatura. Mas Paraty, é claro, torna a missão muito mais agradável.

No lançamento do livro do Emilio, na quinta-feira da semana anterior, ainda comentamos sobre as dificuldades de se andar sobre as pedras do centro histórico da cidade, e sobre como eu invariavelmente tomaria um tombo, em algum momento.

Muita concentração, e sobrevivi às adversidades das ruelas que brincam de esconde-esconde com a maré. Pois na volta para a casa em que estava hospedada fora do centro histórico, em uma boa e velha calçada de concreto, fui tropeçar. Levantei-me logo. Não, não foi nada. Claro que não foi nada: estava escuro. Quando cheguei em casa, na luz, vi que o sangue já me tinha escorrido canela abaixo, deixando meus Crocs com ar de joaninha ao contrário.


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