Wednesday, July 16, 2008

Neighborhood #3 (Power Out)

Desde que encontramos acidentalmente a vizinha do Respectivo no Roberto's, na sexta-feira anterior ao dia das mães, eles passaram a se falar com mais frequência. Isso porque o roommate dele estava para se mudar para fora do Bronx (porque casou e agora vai ter uma vida real) e o roommate dela também estava indo para outro apartamento. Como nenhum dos dois estava disposto a mudar para outro prédio e ambos precisavam dividir o apartamento com alguém, surgiu a idéia de os dois dividirem o apartamento.

Depois de o Respectivo me perguntar, com todo o cuidado, se eu "aprovaria" que ele morasse com ela (- what do you mean, if I approve that you live with her? Besides, it's up to you to choose your roommate, I've got nothing to do with that. - I don't know, because she's a girl. I mean, I just wanna know if you're ok with it. If not, I can always look for another roommate... - Ok, now you're just being silly. Of course I'm ok with it!), ele foi visitar o apartamento dela e fechou negócio, após confirmar, novamente (wtf?!), se eu concordava.

Algumas semanas depois, fomos ao tal BBQ no telhado, que ela ia fazer para comemorar o noivado. Aí, já fiquei conhecendo o novo apartamento do Respectivo, bem mais limpinho e arrumadinho que o outro - e apenas dois lances de escada mais longe do meu apto. e da faculdade.

Quando chegamos lá, ela, que é vegetariana, estava preparando um macarrão e, como ninguém havia chegado ainda, pediu nossa ajuda para montar a churrasqueira (aquelas churrasqueirinhas americanas, redondinhas, com uma tampa, que mais parecem churrasqueiras para acampar). Depois de vermos quantas partes, porcas e parafusos teriam que ser encaixados e enroscados decidimos, por avaliação de habilidades DIY, que eu ficaria encarregada da chave de fenda, enquanto o Respectivo começaria a mudança trazendo algumas camisas e casacos, lá do apartamento antigo, para já deixar no novo armário.

Não é que ele seja completamente inapto para as tarefas DIY: o lance é que, no fundo no fundo (acho que nem tão no fundo), eu adoro brincar com chaves de fenda. Enquanto as meninas que moram comigo chamam o pessoal de facilities até para trocar lâmpadas, além de trocá-las eu mesma, ainda desentupo ralo, privada, conserto cabos, mato insetos (não baratas, porque não temos baratas lá - mas, se tivéssemos, mataria!) e afins. Tudo isso, é claro, desde que eu esteja munida de minha máscara e minhas luvas amarelas de látex por cima das luvas de vinil. Porque, afinal de contas, eu sou menina.

Outro indício disso é que, depois que a churrasqueira estava montada, tínhamos que levá-la lá pra cima, para o telhado do prédio, por uma daquelas escadas de incêncio, que ficam presas na parede. Isso, o Respectivo fez (eu normalmente não faria - sou desastrada demais para carregar coisas - e, de salto alto, como estava naquele dia, nem pensar!). Mas, porque o telhado é - paradoxalmente - bem "roots" e, ao lado da escada, tinha uma placa de metal meio levantada, ele cortou a mão. Achei que não fosse nada, mas, como ele é tão desastrado quanto eu, conseguiu fazer um corte gigantesco, que pingava sangue. Coisa horrível.

Ele pensou em ir ao apartamento antigo e procurar um antissético e um band-aid, mas, antes mesmo de ir, desistiu, porque sabia que a busca seria em vão, já que nunca tinha essas coisas. A Linda, a nova roommate, foi procurar uma caixa de primeiros-socorros, onde geralmente guarda essas coisas.

Antes de qualquer um dos dois esboçarem reação, já tinha sacado da minha bolsa um tubinho de álcool para desinfecção e um band-aid.

Os dois olharam para mim, espantados. "Mas por que é que você carrega álcool para desinfecção e band-aid na bolsa, quando você só vai até a esquina de casa?"

"Porque sou menina", respondi.

(Um remendo para quem não entendeu e pode - a partir de detalhes e não do conjunto da obra, como seria louvável - me chamar de burra: "antissético" é a nova ortografia, pós-reestruturação da língua portuguesa, que começou a ser utilizada em 2008. Aos poucos, vou aderindo.)

3 comments:

Fred Sorin said...

Voce é meninaaaa
sempre esqueço disso hohoho
que menino mau eu sou HUAHAUHUA
e é antiséptico, nao?
é bem mais legal um p mudo.

AdrenAline said...

Não trabalho com letras mudas. Ou tem de haver exagero delas, como no francês, ou há de se aboli-las definitivamente, porque letras mudas são coisa de gente blasé e eu não tenho vocação para lusitana.

Fred Sorin said...

mas como no caso atual
nos proximos anos ainda vamos continuar usando a lingua seeeeeem essas novas regras ham

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