Thursday, July 10, 2008

Now that your coffee is growing cold, oh, all of the customers look so old

Fora o tombo descrito no post abaixo, o passeio em Paraty foi bom. Mas como as coisas comigo nunca são 100% boas, compartilharei um pouco do meu desespero paulistano com você, pobre pessoa que parou para ler este post.

Imagine você estar parado. Para sempre. Quase um coma. Aquela coisa de fazer um esforço mental enorme para mexer ao menos um dedinho da mão e... nada. Aí, você não sabe se o mundo, de repente, vai se esquecer de você e resolver doar seus órgãos, já que você não responde a estímulos. Almoçar em Paraty é mais ou menos assim. Não genericamente falando, mas num sábado de FLIP, certamente.

Depois de cabular a palestra do Neil Gaiman para (decisão sábia!) entrar na fila bem cedinho e pegar autógrafos para um amigo e para o Respectivo (para mim? Então, ainda não... mas quando meu diploma oficial de nerd chegar eu aviso), às 14h fomos almoçar: a Cassy, a Bia (amiga dela) e eu. Encontramos um restaurante italiano com uma espera pouca. Era lá mesmo. Para referência futura, o restaurante era o Corto Maltese.

Demora para anotarem os pedidos, demora para trazerem as bebidas, demora para trazerem pratos e talheres, demora para trazerem a salada. A comida (massa bem boa, por sinal - considerando que estávamos em solo fluminense), nem se fala! Achamos que nem vinha mais. Ao perguntarmos para a mocinha se eles haviam esquecido nossos pratos, ela respondeu:

- Não esquecemos, não. É que deu um probleminha no gás, mas já tá vindo.

"Probleminha no gás" aka acabou o gás do botijão e alguém teve que fazer aquele longo processo de fecha-válvula-tira-o-botijão-põe-o-outro-botijão-e-abre-a-válvula, que deve levar em torno de 3 minutos para um paraplégico.

O pior foi depois da comida. Retiraram metade dos pratos e talheres e sumiram, garçons e dono do restaurante. Em clima literário, foi um momento meio Beckett. Se bem que eu acho que Godot chegaria antes que nossa conta. Fomos criando raízes no chão do restaurante. Parecia que nunca, nunca!, íamos conseguir sair de lá. O céu lá fora foi de ensolarado para cinza-azulado, de fim de tarde. A coisa já havia passado do tom de pegadinha-sem-graça para desespero-teatral-puro-e-simples-quase-Antunes-Filho.

Depois de duas horas e meia (!!), com muito custo, conseguimos pagar e ir embora. Sorte ninguém ter notado a situação e escapado de lá com meu coração, um par de rins e um par de córneas.

(A placa da foto, ironia do destino, estava na entrada do restaurante...)

4 comments:

C.Dias said...

Pois é, esse é o tipo de coisa que depois que passa é possível achar graça mas na hora, não foi bem assim. Eu tive justamente a sensação de estar criando raízes no chão do restaurante e já estava quase colocando a culpa nas sementes de abóbora que a bia tinha me dado pra comer durante a viagem. Preciso dizer que pior que essa, só mesmo o documentário indígena daquela mesma noite. Que dia!
As vezes acho que sinceramente, Beckett reclamava demais pra alguém que nunca pôs o pé em Paraty, não?

AdrenAline said...

Essa coisa de semente é problema na certa. Viu o que deu no João e o Pé de Feijão? É esse tipo de coisa que transporta a gente para uns mundo estranhos, meio de Alice. Quanto ao Beckett, eu teria desencanado (como, de fato, desencanei) de esperar Godot. Mas que não ia ficar sem almoço em Paraty, isso não ia mesmo!

Fred Sorin said...

que voces paulistas tem contra o solo fluminense? só pq é fluminense ja é bom
e PQ DIABOS ALGUEM EVITA UMA PALESTRA DO NEIL GAIMAN, PORRA!

AdrenAline said...

Massa em solo fluminense geralmente não rola, afinal, isso aí é a terra da pizza com catchup (aliás, isso seria uma ofensa gravíssima ontem, dia da pizza!).
E alguém evita uma palestra do Neil Gaiman para evitar as cinco (CINCO!) horas de fila de autógrafos que se seguiram a ela.

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