Monday, July 14, 2008

R.I.P. (or, say hello to the angels)

O Departamento de Filosofia lá da Fordham é bastante... socialmente ativo, digamos. Ao contrário do que seria o óbvio, é o departamento mais animado da faculdade, com mais festinhas e afins (é claro que a universidade é jesuíta, o que faz com com a expressão "socialmente ativo" deva ser tomada com a maior parcimônia, and yet).

Na verdade, como não somos burocratas, organizamos simpósios, colóquios, conferências e coisas do gênero acrescentando sempre uns comes e bebes (bebes! muitos bebes!) no fim, para podermos fazer algumas refeições decentes no ano. Afinal, somos pós-graduandos em filosofia e fartura não faz parte do grupo sócio-econômico no qual nos encaixamos (aka desempregados).

Um dos maiores eventos do ano para nós é o jantar de Natal. Porque significa que o winter break está chegando e é nossa oportunidade de comer decentemente (e estocar para o inverno, tipo urso mesmo) e ver nossos distintos professores beberem além da conta.

O jantar de Natal de 2007 foi no dia 14 de dezembro. Estava longe de ter terminado meus trabalhos do semestre (entreguei o último às vésperas do Natal), mas fui espairecer assim mesmo.

Chegando lá, aquele socialzinho básico e tal, me servi e me sentei com um pessoal mais conhecido. Ocupamos duas mesas grandes, e fomos fazendo um rodízio de quem conversava com quem. Nesse dia, conheci o Dr. D., tentei - sem nenhum sucesso - brincar com um dos filhinhos fofos do Dr. J., e conheci o Father W. Norris Clarke.

Para quem não é nerd de filosofia que nem eu, isso pode não fazer diferença, mas só para explicar como isso foi um turning point na minha vida, algumas informações relevantes sobre ele: Father Clarke, um dos maiores especialistas em filosofia tomista do mundo, durante os vinte minutos em que ficou batendo papo comigo, me ensinou mais sobre Tomás de Aquino do que eu tinha aprendido até aquele dia (e olha que tive ótimas aulas de Filosofia Medieval, com outro mega-scholar).

Na verdade, eu não fiquei conversando com ele exatamente por livre e espontânea vontade: ele veio conversar com os alunos, alguém me apresentou e ele gostou de mim. Enquanto isso, os meus colegas me deixaram numa cilada: foram saindo da mesa, de fininho, para aproveitar a festa, até que eu fiquei sozinha com o Fr. Clarke. Isso porque ele, como um bom velhinho-bem-velhinho repetiu várias vezes a mesma história, incluindo uma que envolvia o Papa João Paulo II e as correspondências filosóficas que trocavam.

Depois que ele se apresentou para mim pela terceira vez, eu disse que sabia quem ele era. Já tinha lido textos dele no Brasil. Ele ficou surpreso e me perguntou por que eu tinha interesse em Filosofia Medieval, já que, de fato, estudo Fenomenologia. Expliquei que gostava bastante de Tomás de Aquino e que o texto que garantiu minha aceitação na Fordham foi justamente um texto em que eu analisava o texto de Tomás de Aquino sobre o Tratado sobre a Trindade do Boécio. Pronto. O velhinho começou a falar sem parar sobre isso. Me deu uma aula fascinante.

Além disso, me contou sobre a vida jesuíta, e como começou a dar aulas na Fordham em 1945 (!!) e tinha se tornado professor emérito em 1985, e como sempre morou ali, no campus, no Loyola Hall.

Depois de um tempo, o pessoal voltou para a mesa, para me "resgatar". O Respectivo se desculpou, por ter me deixado lá, tendo que conversar com o velhinho. Na verdade, eu agradeci, porque um dos motivos que me levou a, de fato, ir para a Fordham foi o fato de eles terem um programa Medieval forte e uma das pessoas que eu mais queria conhecer (e achava que nunca teria a oportunidade) era justamente o Fr. Clarke (a outra é o Fr. William O'Malley, ams esta é outra história, e deverá ser contada em outra ocasião).

Pois há pouco mais de um mês, no dia 10 de junho passado, Fr. Clarke morreu, já aos 93 anos, no St. Barnabas, vítima de um derrame. Heartbreaking. Pelo lado bom, fiquei contente em ter ao menos tido a oportunidade de conhecê-lo e conversar de verdade com ele, coisa que até gente que está no Departamento há mais tempo que eu nunca fez.

Graças à pseudo-maldade planejada pelos meus colegas, ganhei alguns bytes a mais de sabedoria e uma história para contar.

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