Monday, July 21, 2008

Seashell eyes, windy smile

Muitos anos atrás, em idos de 2000, eu tinha uma amiga. Uma menina que estudava comigo, na verdade. Ela era quase dois anos mais velha, mas estudávamos na mesma classe. Quando estávamos no 3o. ano do colegial (que ainda se chamava colegial), fizemos uma tal orientação vocacional (aliás, furadíssima, porque fiz voto de pobreza e passei beeem longe de Administração e Comércio Exterior, minhas supostas "vocações") no colégio onde estudávamos. As reuniões com as psicólogas eram à tarde, nos deixando uma hora e meia para almoçarmos.

Isso era em Perdizes, que tem bilhões de restaurantes a quilo lotadíssimos por causa da Pontifícia. Quando saíamos da escola, na hora do rush dos quilos, tínhamos que procurar algum lugar alternativo para almoçar e evitar filas. Um vez, essa menina me convidou para irmos almoçar em um restaurante ali na R. Homem de Melo, o Tender Home.

O Tender Home foi um dos restaurantes (junto com o Carlota e o Carlino) que educaram meu paladar. Lá comíamos coisas ótimas, como ravioli de figo com molho de gorgonzola e noz-moscada, e, de sobremesa, o melhor cheesecake do mundo (o melhor! E olha que eu já fui à Cheesecake Factory e afins), ou crème brûlée. Durante esses almoços semanais por cerca de três meses, fomos nos tornando amigas.

Mas, obviamente, dali a seis meses fizemos vestibular e acabou-se a brincadeira. Pois é pessoal, nada de historinha muito fofinha por aqui! Fui para a Pontifícia e ela também, mas raramente nos encontrávamos, pois fazíamos cursos diferentes, em horários diferentes. Quando nos víamos, era só aquela coisa "oi-tchau". E logo no nosso primeiro ano de Pontifícia, o Tender Home fechou e deu lugar a uma ótica. Nunca entendi por que, já que era relativamente bem movimentado. Talvez fosse caro demais para a região e para competir com os quilos, sei lá. Mas tive ótimas conversas lá, entre noz-moscada e chá de hortelã. E a chance de eu reecontrar aquela amiga de anos atrás para alguma conversa ia se tornando cada vez menor, porque já mal nos falávamos e nem tínhamos a desculpa de irmos "àquele restaurante... Lembra?"

Pois no ano passado, poucos meses antes de eu me mudar para NY, finalmente a reencontrei e resolvemos concretizar aquelas conversas de "vamos almoçar um dia desses". Como as duas, cada uma por seu motivo, continuavam na Pontifícia (mesmo depois de seis anos e meio), fomos almoçar ali perto, em um daqueles restaurantes genéricos de Perdizes. Não falamos muito dos "good ole times" (whatever that is supposed to mean) já que nenhuma fazia questão, mesmo. Mas depois de quase sete anos, apesar de cada uma ter ido para um lado na vida e sermos completamente diferentes, ganhamos novas coisas em comum: gosto pelos mesmos livros, pesquisas em uma mesma área (embora com abordagens diferentes) e uma paixão pela Áustria. Lindo, né? É, mas aí, depois de nos vermos umas 3 ou 4 vezes, eu fui embora para NY.

Mas esse ano, passando as férias em São Paulo, me encontrei novamente com ela. Algumas vezes, na verdade. Em uma delas, fomos almoçar na Vila Madalena (para, logo depois, fazermos a coisa que ela mais odeia, e que é um dos meus passatempos preferidos: experimentar roupas em lojas). Ela sugeriu me levar a um restaurante que ela adora, o Florinda.

Foi uma tarde ótima, porque ela é dessas pessoas que me deixam muito para cima. Ela tem o sorriso mais feliz do mundo (brinco com ela com aquela música da Mary Tyler Moore, "you can turn the world o with your smile") e "cabelos de Gisele" como costumávamos dizer oito anos atrás.

Depois de um longo almoço, com direito a entrada (bruschetta de brie com mel), prato do dia (gnocchi de pêra com molho de gorgonzola) e chazinho (de hortelã), tinha que falar uma última coisa. Pensei muito, porque tem umas lembranças que a gente guarda tanto e aí, quando percebemos que aquilo não faz diferença para as pessoas, ficamos frustrados. Mas arrisquei:

- Nossa, sabe o que essa comida me fez lembrar muito? Você vai me achar maluca, talvez, por estar me lembrando dessas coisas, mas essa entrada e esse prato do dia me lembraram muito do Tender Home, sabe? Aquele aonde a gente ia e...
- Mas é claro! E foi exatamente por isso que eu te trouxe aqui! E, para falar a verdade, não sabia se você ia lembrar, mas esse tempo todo, desde que a gente chegou, estava esperando você falar isso... Ah, que bom!

Não sobrou nenhuma foto do Tender Home (nem no Google Images!) para contar a história, mas tem essa foto nossa, de oito anos atrás, para ilustrar.

2 comments:

Paulo Tiago said...

Adoro essas histórias, e acho que meio que me apaixonei pela sua amiga. Apresenta?

E pena que eu mudei pra cá em 2002 e não faço idéia do que é o tal Tender Home.

Fred Sorin said...

que coisa mais bonita e nostalgica hein

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