Saturday, July 19, 2008

Spitting games (or, how Apple will never stop screwing you)

Passei o Springbreak e a Páscoa na Flórida, como vocês bem puderam acompanhar aqui e aqui. O Respectivo viajou para lá alguns dias antes que eu. Eu ficaria uns dias a mais em NY, para resolver umas coisinhas e deixar ele ter quality time com a família antes de eu chegar para conhecer o pessoal todo.

Como eu já disse, conhecer a família não me preocupa muito, em geral, porque se há um fato inquestionável sobre mim é que à primeira vista eu sou adorável (wink, wink). O momento pânico aconteceu na semana anterior, quando ele estava fazendo as malas para a viagem e eu ofereci:

- Olha, se você quiser que eu leve alguma coisa depois, na minha mala, é só deixar comigo e eu-
- Ah, então. Na verdade, é capaz de eu acabar me esquecendo de alguma coisa. A gente tinha uma chave extra, mas o J. perdeu, eu acho. Ia deixá-la com você e tal, mas aí não vai rolar...
- Não, tudo bem. Eu quis dizer que se você quiser levar alguma coisa e não couber na sua bagagem, deixa comigo que eu levo depois.
- Sim, eu entendi. Mas acho que não. Acho que cabe tudo. Mas eu tinha pensado nisso de deixar a chave e-
- Ah, aliás, eu tinha pensado em levar alguma coisa para seus pais e sua tia e-
- Não, então, mas sobre a chave -
- Ah, deixa. Depois a gente vê... Então, sobre seus pais-
- Não, então. De qualquer forma, quando eu for embora, vou deixar minha chave com você, porque se eu me esquecer de alguma coisa, você vai lá e pega pra mim...
- Tá bom, tá bom. Mas então, seus pais e sua tia...

Eu claramente não queria saber de lance nenhum de chave! Primeiro que eu já não gosto de ficar com chave da casa de ninguém, muito menos de namorado. Conhecer a família e ficar com a chave em uma mesma semana? Eu mal tinha digerido o fato de que a gente estava namorando e, de repente, já vem o pacote completo? Em meio a flashbacks do mal, um pequeno surto de pânico.

Felizmente, uns dias depois, ele parecia ter esquecido a idéia toda. Ou pelo menos fingiu, após as mudanças bruscas de assunto terem deixado claro que eu não queria saber de chave nenhuma (= commitment demais). Ufa!

Um pequeno stream of consciousness: Algumas semanas antes, depois de ele ter constatado que seu mega-super-ultra-state-of-the-art iPod não teria conserto (por razões óbvias = é fabricado pela Apple) e xingado até a última geração do Steve Jobs, eu - muito adorável - emprestei para ele meu peso morto iPod, que estava na gaveta, praticamente nunca usado, visto que meu Upstage é muito mais eficiente (e, alas, também funciona como telefone!).

Eis que depois de uns 2 dias usando todos os 2GB (uau!) do meu iPod, na hora de embarcar para a Flórida, ele deu falta do maldito aparelhinho. Procurou, procurou e nada. Ele não sabia se tinha perdido na academia, no bolso de alguma roupa ou em algum canto do apartamento. "Deixa pra lá. Quando a gente voltar você procura com calma", sugeri.

Fui andando com ele até a estação de trem, para fingir que ajudava a carregar as coisas. Ele ainda revirou as malas e nada do meu iPod. Logo antes de o trem chegar, ele teve a brilhante idéia:

- Toma. Fica com a minha chave. Aí, quando der, antes de você ir me encontrar, dá uma passada no meu apartamento e vê se você consegue encontrar seu iPod.
- ...

Ou seja, não consegui escapar da maldição da chave. E tudo por causa do iPod. Ótimo!

No dia seguinte, depois de ir à manicure e passar na Payard para fazer comprinhas de ovos de Páscoa, passei lá no apartamento dele. Com a devida permissão (e pedido, na verdade) dele, revirei vários cantos. E nada do meu iPod. Sala, quarto, cozinha, bolsos de jaquetas e calças...

Se não queria ficar com as chaves, certamente não queria ter que revirar nada de ninguém. Tem coisa pior? Qualquer outra pessoa poderia ter visto nisso uma super-oportunidade: revirar a vida do namorado, atrás dos mais obscuros segredos. Pois é. Eu não. Só entro em pânico e evito olhar para qualquer coisa que não seja da minha conta. Mesmo porque tem coisas que a gente não deveria saber sobre as pessoas. E ponto.

Só não pude evitar atentar a um detalhe: um porta-retratos gigantesco (estava em cima de um tipo de criado-mudo: não dava pra não ver) com fotos da família. Engraçado como já tinha estado no quarto dele algumas vezes e nunca tinha reparado no porta-retratos! Acho que não estava lá antes. Não, não estava. Eu teria notado. Parei e olhei por um instante: queria ter uma idéia de como eram as pessoas que eu conheceria em dois dias.

O bom é que eles não pareciam nem um pouco ser uma daquelas dysfunctional families. E que, em dois dias, aquelas chaves já estariam fora das minhas mãos.

E isso tudo, para mim, é a prova cabal de que a Apple é, sim, culpada por boa parte dos grandes males e angústias da humanidade. E que mesmo quem não usa os malditos produtos deles ainda terão suas vidas atrapalhadas por alguma merda relacionada. And there's no escaping it.

(E, para quem ficou se perguntando se meu iPod foi encontrado, não se preocupem; ele foi para um lugar melhor: um mundo habitado por isqueiros, guarda-chuvas e pés direitos de meias.)

2 comments:

Fred Sorin said...

voce tem alguns problemas
mais problemas do que sobre aquela que eu te falei

AdrenAline said...

Quando vc crescer, vc vai entender... Aliás, por onde vc anda, neguinho? Preciso falar de negócios com vc, besta.

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