Friday, November 7, 2008

We have the facts and we're voting (or don't we?)

Para começar, uma justificativa: não é porque eu comentei essa coisa das eleições americanas aí abaixo que eu faço parte daquela parcela alienada da população que acha os EUA o máximo e está nem aí pra boa e velha pátria do Congo. O lance é que eu estou aqui, sendo bombardeada por cabeças de Obama e McCain... e infelizmente tenho que confessar não pude cumprir meu dever civil em outubro.

Quem não quiser mais blá-blá-blá, pule os próximos dois parágrafos:

Mesmo sabendo que o voto obrigatório é resquício de uma história de ditadura que só permitiu eleições diretas quando o povo ainda era burro o suficiente para elegel o Collor, na época de eleições viro aquela cidadã consciente. Eu voto, sim, pra vereador, deputado estadual e federal, e senador. Se me perguntarem em quem eu votei para esses cargos na última vez em que foram decididos, eu vou lembrar. Porque é aquela história: presidente, governador e prefeito não fazem nada sem um legislativo decente ao lado. Mas isso a galera no Congo ainda vai ter que descobrir.

Enquanto, por aqui, todo mundo fala em Obama, o pessoal deixou passar o fato mais importante, o do pessoal que fica lá no fundo, onde a câmera já fica meio sem foco. E lá a maioria esmagadora também é democrata.

Pulou? Agora volte a ler:

De volta à minha história, eu teria que ter votado nas eleições municipais em São Paulo em outubro, mas, estando aqui em NY, obviamente não rolou. Tem sempre aquela conversa de votar no consulado/na embaixada e tal, mas vamos esclarecer: o voto nos consulados/embaixadas é só para as eleições presidenciais. Para votar por aqui (o que só aconteceria em 2010), eu teria que tranferir minha residência eleitoral para cá e, consequentemente, tranferir meu título. Por isso é que não se vota daqui para prefeito, governador e afins: não sendo mais residente legal do estado de São Paulo, por que raios eu votaria para prefeito, vereador, deputado estadual etc? Get it?

Bom, sem título tranferido e sem poder votar, que fazer? Bom, aí o indivíduo entra no site do Consulado Geral do Brasil em Nova York e pega as informações sobre o procedimento: para cada turno, tenho que escrever uma carta para o juiz do meu cartório eleitoral justificando minha ausência, anexar cópia do meu documento de identificação, cópias dos materiais que justifiquem a ausência e enviar pelo correio à minha zona eleitoral até 60 dias após o pleito. Burocrático, mas relativamente descomplicado, se comparado a outros procedimentos triviais da República Federativa das Bananas.

Só que há um disclaimer no site do consulado:
ATENÇÃO: Recomendamos que o eleitor, ao postar sua justificativa, guarde comprovante de registro da expedição da correspondência.

E é aqui que a brincadeira fica divertida. Com todos os meus formulários, documentos e cópias, vou ao correio aqui para enviar o envelopão. Falo pro meu Newman: "Preciso que este envelope vá com Aviso de Recebimento (AR)."

E aí ele me explica as inhas opções de envio:

Express Mail International (a única opção com AR, ou seja, a opção que o consulado me manda usar) - US$ 23,95.
Priority Mail International (sem AR) - US$ 11,95.
First-Class Mail International (sem AR) - US$ 1,95.

Eu deveria mandar no mais caro. Deveria. Mas aqui vai o segredinho da tia Aline: se, por qualquer motivo sobrenatural à la Náufrago, meu envelope não chegar às mãos do meu fofinho juiz eleitoral (eu imagino ele como uma espécie de Papai Noel da burocracia), a única coisa que vou ter de fazer é pagar a multa quando eu voltar ao Brasil.

A multa... ah, a multa! Vamos dar um Google pra ver? A multa para o eleitor faltoso fica entre 3 e 10% de 33,02 UFIR. UFIR, galera!!! Alguém sabe que diabos é uma UFIR? (A UFIR é um número irracional, da família do Pi e tal: a área de um cone é 2-UFIR-ao-quadrado-sobre-raiz-de-três).

Vamos dar um Google na UFIR. Os primeiros resultados são linques que têm cotação da UFIR e da URV... pra vocês verem como essa história de UFIR é um troço de mil-novecentos-e-sorvete-da-Gelatto! Quem se lembra da URV do seu Itamar e do sorvete da Gelatto põe o dedo aqui, que você é pelo menos tão "jovem" quanto eu... Bom, mas o fato é que uma UFIR equivale (atualmente) a R$1,0641.

Isso significa que, se, na pior das hipóteses, meu envelope nunca chegar ao meu juiz (ou, se chegar, mas, como um bom burocrata brasileiro, ele usar minha justificativa no lugar do Papel Neve), vou ter que pagar uma multa de... vamos lá. Lição de matémática do dia - inequações:

3% de 33,02 . 1,0641 (menor ou igual*) multa (menor ou igual) 10% de 33,02 . 1,0641 =
= 3% de 35,136582 (menor ou igual) multa (menor ou igual) 10% de 35,136582 =
= 1,05409746 (menor ou igual) multa (menor ou igual) 3,5136582


[* a porra do HTML do blogue não aceita o sinal de maior ou igual...]

Ou seja,
a multa seria entre R$ 1,05 e R$ 3,51!! Por que diabos eu pagaria US$ 23,95 (mais de R$ 50) para mandar o raio do envelope com AR?? US$ 1,95 (pouco mais de R$ 4,00, atualmente), já está acima do valor da multa. Só enviei assim mesmo pelo óbvio motivo de me poupar da aporrinhação básica que seria enfrentar a justiça eleitoral em pleno calor de janeiro próximo.


Mas a lição que fica é: entre todos os símbolos e letrinhas mágicas, no fundo, no fundo, o motto da República das Bananas do Congo não tem nada de ordem ou progresso. O lance é: que se salve o menos confuso. E vamos louvar o Deus Google, porque sem ele, eu ficaria achando que 3 a 10% de 33,02 UFIR estava mais pra uns R$ 300... e viva a ignorância! Meu voto pra deputado federal em 2010 vai pro primeiro que propuser acabar com essa palhaçada de UFIR. Ouviram, candidatos???

1 comment:

C.Dias said...

Puxa, eu nem me toquei de te dar esse toque. Vc não precisaria ter votado e nem mesmo justificado. Quando estava em Londres tivemos as eleiçõe presidencias e eu não votei lá. Quando cheguei ao Brasil foi só ir ao meu cartório eleitoral, apresentar o titulo e pagar a multa ( que é de fato esse valor ridículo de 3 reais e pouco). Achei que seria um inferno mas nem teve demora nem nada. Vc só tem que lebrar de pedir um comprovante para o atendente senão eles não te dão porque tecnicamente não precisa, mas na dúvida eu sempre pego. Enfim, se estiver por ai nas proximas eleições não precisa se dar a tanto trabalho porque pelo jeito é mais fácil regularizar a situação depois aqui do que daí de N.York.

Anyway, dado o toque.

Muitas saudades sweety!
bjs

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