Thursday, February 18, 2010

The Grass Is Always Greener

Quando o Respectivo e eu mudamos para nosso super apartamento, em maio do ano passado, começamos a planejar a compra da nova TV. Eu tinha uma TV grande, trombolha, e ele idem. Ambas funcionavam, tal. Mas a gente queria uma HD, para poder usar com o streaming automático do Netflix e também para ficar melhor com o PlayStation 3 dele.

Depois que voltamos de férias, compramos a TV e mandamos instalar a TV a cabo. Ok. Foi tudo bem até agora...

A nossa provedora de TV a cabo resolver nos mandar um novo aparelho de TV a cabo, um aparelho digital, que pegaria os canais HD. Como eu estava ocupada com trezentas mil coisas, lá foi o Respectivo instalar o aparelho. Não parecia nada complicado: era só conectar uns cabos, tal.

Tudo certinho. Exceto: as nossas imagens digitais fabulosas apareciam todas em 3 tons de verde! Ótimo!

A gente compra uma TV de 1080p, para assistir ao Dr. House curar marcianos? É, acho que não.

E lá vamos nós chamar o técnico. Todo um processo. Enquanto isso, a vida vai seguindo. Verde.

Saturday, February 13, 2010

I don't know much about Cinco de Mayo, I'm never sure what it's all about

Finalmente, a conclusão da novela mexicana (e o desfecho que explica como essa série de contos foi iniciada sob o pretexto da minha recente perseguição pelas testemunhas de Jeová em NY):

Depois de sobreviver ao caos respiratório da minha noite mal dormida, fui me aventurar a explorar o Templo Maior, que fica a poucos quarteirões do albergue. É lógico que eu tive que dar uma volta surreal, porque o centro da cidade estava bloqueado por conta da Maratona Internacional da Cidade do México.

Fora isso, as ruínas valeram a pena, apesar de não chegarem perto dos lugares com mais área preservada, como Chichen Itza (onde estive há uns 15 anos).

Depois, dei mais uma andada, fui almoçar na Casa de los Azulejos. No caminho de volta para o hotel, para juntar minhas coisas e ir pro aeroporto, dois acontecimentos inusitados:

1) Estou andando tranquilamente pela Av. Cinco de Mayo quando ouço gritos: "Aline! Aline!". Minha reação foi: "WTF? Tipo... estou na Cidade do México! Não conheço ninguém aqui... acho."

Quando olho, vejo que são três dos fenomenólogos que estavam em Morélia, na conferência. Como conseguimos nos esabrrar, sem nada combinado, no meio de uma cidade gigantesca, com dezenas de milhões de habitantes ainda é meio que um mistério. Mas a coisa fica mais Twilight Zone.

2) Confraternizamos, tiramos uma foto e eu segui em direção ao albergue. Até que, novamente, alguém me pára na rua:
"Excusez-moi, mademoiselle. Parlez-vous français?"
Achei que fossem turistas perdidos, em perigo. Parei e dei atenção (ingenuidade...):
"Oui."
"Êtes-vous française?"
"Non, j'uis brésilienne."
"Ben, oui? Brésil, eh? Très bien! Et vous êtes ici en vacances ou...?"
"Oui... j'crois qu'on peut l'dire."
"Avez -vous une minute?"
"Beh, pas vraiment. J'dois être à l'aéroport dans une heure, donc..."
"Bien, pas de problème. Je vous donne ce magasin, et vous pouvez le lire et le montrez à des amis."
"Oui, bien sûr. Merci."

Querem saber qual a revista que me deram? Tour de Garde, aka Watchtower, aka a revistinha das Testemunhas de Jeová. Pois é. Eles conseguiram me encontrar até na Cidade do México. Em francês (depois, eles me contaram que eram missionários vindos da África, da Guiné Francesa, se não me engano). Porque não é suficiente eles me perseguirem em NY.

Se isso não é uma conspiração internacional, então não sei o que é.

Friday, February 12, 2010

I was high, but she was the sky

Ainda sobre o México:

Depois que me instalei direitinho no albergue, criei coragem pra encarar a chuva (obviamente, sem guarda-chuva), e fui fazer um pouquinho de turismo (e procurar uma boa garrafa de tequila para trazer pra NY, a pedido do Respectivo).

Depois de ter passado por quase todos os lugares turísticos do centro da cidade (com exceção do Templo Maior, que eu deixei para a manhã seguinte), fui jantar (no Café de Tacuba, fantástico) e fui me preparar para dormir. Estava exausta. Tinha andado uns bons 6Km pela cidade (depois de duas noites de tempo de sono reduzido), então, até a caminha do albergue estava parecendo ótima.

Peguei no sono em menos de dez minutos. Só que... acordei às 4 horas da manhã em um desespero surreal. Eu acordei com uma mistura de sensação de apnéia com estrangulamento. Levantei, fui para a janela e respirei fundo. Nada.

Aí, me caiu a ficha: Cubatão. Sim, estava me sentindo em Cubatão. Só que pior. A Cidade do México tem uma poluição absurda. O ar é crocante. Como esses dias estavam particularmente nublados, a densidade do ar parecia estar consideravelmente alta. Tinha que mastigar bem antes de inspirar. Mas eu não sabia bem como.

Além disso, notemos: a Cidade do México fica a 2235m do nível do mar. Só para comparar, São Paulo fica a 792m do nível do mar, Nova York, a 27m, e La Paz a 3640m (!!).

Basicamente, a sensação que eu estava tendo era a de que tinham me levado pra Cubatão (que, aliás, fica praticamente no nível do mar) e começado a arrastar Bolívia acima.

Quando me dei conta de qual era a origem do problema, vi que não dava pra fazer muita coisa a respeito. Tentei voltar a dormir para acordar em um horário mais humano. E fui imaginando que delícia seria escalar ruínas pré-colombianas nessa altidude, com esse nível de poluição, num calor brutal de 25C com umidade relativa do ar em torno de 95%.

Nessas horas, até simpatizei um pouco com os jogadores brasileiros, que reclamam quando têm que jogar em La Paz. Mas logo passou. Porque eles são patrocinaodos pela exploradora de criancinhas Nike e viajam com despesas 120% pagas (tem brinde, tal). E eu não.

Wednesday, February 10, 2010

I was bright, but she was much brighter

Continuando a série "novelas mexicanas" por Aline.

Depois de toda a aventura acadêmica em Morélia, peguei o ônibus de volta à Cidade do México. Chegando na rodoviária, tomei um táxi para ir ao albergue (que é aquele pico que rico gosta de chamar de hostel porque tem um tom mais limpinho).

Para começo de conversa, não trabalho com albergue, hostel, camping e nenhum tipo de acomodação pobre do gênero. Sou viajante elistista. Não trabalho com guias do tipo "Lonely Planet". Quer viajar? Fica em hotel (ou casa de amigos, parentes etc. - porque esse pessoal serve pra isso). Não tem dinheiro pra pagar hotel? Não viaja.

Mas o lance é que eu meio que tinha que viajar. E, com a verba reduzida que a faculdade ia me fornecer (já que eles já tnham bancado outra viagem minha dois meses antes), só ia dar pra pagar duas noites de hotel 4 estrelas em Morélia. Hotel à la Hilton na Cidade do México não ia rolar. Mas era só uma noite, esperando o voo de volta para o JFK.

Fiz a reserva no Mexico City Hostel, que me foi recomendado por uma amiga que foi para lá depois que eu arrumei um trampo na ONU pra ela. A minha condição é que eles tivessem quartos individuais. Tinham. Fiz a a reserva. Uma noite ia me custar algo em torno de vinte doletas. Tudo certo.

De volta ao lance do táxi. O taxista não sabia onde ficava a rua do albergue. E eu tentando explicar (tinha visto o mapa). Depois de nos perdermos loucamente, ele perguntou se eu não podia telefonar para o albergue, pedindo informações de como chegar. "Ok, mas... veja bem: eu não tenho celular aqui." O taxista me olhou com cara de espanto: "Você não tem celular??"

**Pausa para conclusão sociológica: o fenômeno Casas Bahia deve ter chegado ao México. Taxista indignado porque passageiro não tem celular é um lance meio interessante...**

Hipótese sociológica acima não confirmada, porque o taxista não tinha celular. Maldito. Parou perto de um orelhão, para eu telefonar para o albergue. VAI VENDO!

Preciso de moedas. Ok. Mas eu só tenho notas de 100 pesos (que equivalem - vejam! - a 8 dólares). Quando notas de cem valem 8, quem é que vai carregar moedas???

Consegui achar uma nota de 20 pesos no fundo da carteira. Tentei trocar com o cara que vendia milho (!!) em uma barraquinha ao lado. Nada. Tentei outro. Ele me trocou por 2 moedas de 10 pesos ou algo assim. Liguei pro albergue e pedi pro taxista falar com a pessoa, para eles se entenderem.

A essa altura, caía uma chuva de monção na cidade, e a última coisa que eu queria era servir de intérprete portunhola para a conversa entre dois mexicanos.

Chegamos, finalmente, ao albergue. Bonitinho, limpinho, organizado, sem presença aparente de americanos baderneiros. Fui fazer o check-in (ou o equivalente). A mocinha da recepção então me informou que o quarto individual que eu tinha reservado estava ocupado por alguém que tinha ficado doente e tinha prorrogado a estada lá. Como estava doente, não poderia dividir o quarto com outros. E esse era o único quarto individual do albergue. Ai, Jesus...

Mas aí, vem a salvação: como a reserva estava feita, ela me deu a opção de me colocar em um quarto compartilhado, e eu pagaria o preço da cama, normalmente, ou manteria o preço do quarto individual, mas me daria um quarto grande, com oito camas, só para mim.

Me senti meio que tendo um blonde moment quando escolhi o quarto grande só para mim. Mas, pessoal, vamos entender a situação: albergue. Cidade do México.

E assim foi.

Achei que o resto da viagem seria sossegada, já que me restavam apenas 20 horas e já tinha passado por intervenções demoníacas suficientes. Pois é: santa ingenuidade Bátiman. (Mais por vir...)

Tuesday, February 9, 2010

I had a flame, but she had a fire

Continuando a saga mexicana...

Depois que eu apresentei meu trabalho na conferência, fui explorar Morélia. Essa foto aqui dá uma idéia de qual é a da cidade.



Os únicos problemas do México, ao meu ver, continuam sendo os clássicos: a) o México está cheio de Mexicanos (a maioria dos acadêmicos mexicanos que eu conheci - não muitos, na verdade, porque a maioria do pessoal na conferência veio de outros países - era bem interessante, mas o povo na rua é bem trash. Sou mais a Rocinha.) e b) a galera lá só come milho!

Olha só: fui a vários restaurantes chiques, altamente recomendados por sites de gastronomia, guia de viagem etc. e pedi os pratos sugeridos por serem os melhores. Não deu certo. Tentei os restaurantes populares (também conhecidos como "culinária tru"). Nada. Mesmo sem saber o que as palavras significavam (não apenas porque meu espanhol ainda beira o sofrível, mas porque os pratos tradicionais pré-colombianos têm sílabas impronunciáveis), fiz pedidos randômicos. Em todos os casos, eu invariavelmente recebi uma porção de... MILHO! Cozido, assado, frito, estilo pamonha, doce, salgado. E isso para o café-da-manhã, almoço e jantar!

Fiquei só 3 dias no México, mas, quando voltei para NY, nunca tive tanta vontade de comer algo não-milho! Mesmo que fosse frango! (e olha que eu a-bo-mi-no aves!)

Então, pessoal, "fica a dica": se for ao México, vá a Morélia. Se for a Morélia, traga sua garrafinha d'água e sua lancheira cheia de comidinhas!

Monday, February 8, 2010

I had a match, but she had a lighter

A viagem de ônibus, no fim das contas, foi excelente. Até que o ônibus chegou na rodoviária de Morélia. Parecia que eu tinha acabado de chegar no meio de uma favela - e estava preste a anoitecer. Eram mais ou menos 18h30 quando cheguei. Medo.

Peguei um táxi para ir até o centro histórico, onde tinha feito reserva para me hospedar no hotel-sede da conferência, Hotel Alameda. Depois de meia hora de trânsito infernal (e uma paisagem pouco animadora), o táxi me deixa em frente ao hotel. O custo do trajeto de meia hora (!)? 30 pesos. Isto ~e, algo em torno de US$ 2,80 (!!!). Bom, pelo menos isso.

Fiz o check-in no hotel e, antes de ir à palestra da noite, que começaria às 20h00, fui tomar uma banho e dar uma volta pela praça central. O hotel em que fiquei, quatro estrelas, era sensacional, com a melhor localização possível. E me deram um dos melhores quartos. Olhei pela janela e vi isso aqui, ó:



Pois isso é Morélia à noite. Isso e muito mais. A cidade me surpreendeu completamente. Está agora na minha lista dos lugares mais bonitos do mundo. E ainda faltava eu explorar mais à luz do dia. Bom, me mandei para a palestra da Natalie Depraz (que é a fenomenóloga mais simpática do mundo!) na biblioteca pública (que é um dos prédios mais bonitos ever) e depois fui jantar no Los Mirasoles. Achei a comida meio overrated, mas o local, como parece ser padrão em Morélia, era surrealmente bonito. Dei uma passeada pela rua, para apreciar as festas locais (estava tendo uma espécie de quermesse há um quarteirão do hotel, com várias comidinhas com cara boa), mas depois não aguentei e cedi ao sono. No dia seguinte, tinha que acordar cedinho, para tomar café da manhã e ir para o campus da Universidad Michoacana apresentar minha comunicação. Maior sono. Acordei longe do melhor humor do mundo, ainda meio apodrecida pelo fuso de 3 horas. Aí olhei pela janela:


É. Foi o suficiente.

Desci para o café da manhã, comi diversas variedades de preparação de milho (aparentemente não se come outra coisa no México) e peguei o ônibus dos filósofos felizes (um fretado, arranjado para levar os gringos para o campus, que ficava na região lama da cidade) para ir dogmatizar sobre metafísica e epistemologia. Ah, a vida acadêmica!

O bottom line desse post é que Morélia é uma cidade espetacular. De verdade. E olha que eu sou o tipo de pessoa que acha Paris "deveras agradável, mas só".

Saturday, February 6, 2010

Oh baby, I was bound for Mexico

Bom, já que eu mencionei minhas aventuras mexicanas no post anterior, vamos aos contos mexicanos...

É. Lá pro final de setembro de 2009, fui-me para o México. Fui apresentar um trabalho no V Coloquio Latinoamericano de Fenomenología.

O evento era em Morélia, que é uma cidade histórica, meio à la Paraty. Voo para Morélia? US$750. Voo para Cidade do México? US$300. Ser uma estudante com verba limitada? Sem escolha.

O plano: voo JFK-MEX, saindo de NY às 9h da manhã (i.e. saindo de casa às 5h da manhã eu teria uma boa margem de erro com o metrô e tal). Chegada na Cidade do México por volta de uma da tarde (horário local). Táxi para a rodoviária (meia hora). Ônibus para Morélia (aproximadamente 5 horas). Tempo total estimado de viagem: 11 horas. E viva!

O melhor de tudo é que parte do plano incuía uma viagem de ônibus de 5 horas. No México. Está imaginando o problema?

Minha imaginação foi às tampas da hipérbole. Logo imaginei aquele esquema ônibus intermunicipal no Nordeste: galerinha viajando com fogão, geladeira, galinha, porquinho da Índia e afins. Pâ-ni-co. Mas como a conferência era importante, o negócio era encarar com aventura. À la Bear Grylls.

Detalhes? O voo para a Cidade do México (voei de AirMexico) foi bem decente. Não é à toa que a AirMexico é considerada uma das melhores companhias aéreas da América Latina. Lembra como era o serviço de bordo da Varig nos anos 80-90? Mais ou menos isso. Comidinhas, bebidinhas, aeromoças simpáticas. De verdade. O único problema do México, de fato, é estar cheio de Mexicanos. Porque, de resto, o país surpreende.

Bom, o voo chegou no horário. Peguei um táxi para a rodoviária. Eu já tinha recebido informações bem específicas de que táxi pegar. E também para pedir ao taxista que me deixasse em uma certa entrada da rodoviária, para evitar pedintes, trombadinhas etc. Imagine minha cara de pânico lendo o e-mail do cara com essas instruções.

Está certo que eu morei em SP minha vida toda, então não deveria ter medo. Mas atentemos a um detalhe: eu nunca trabalhei com transporte público em SP (com exceção da linha rica nova - amarela? - do metrô). Só peguei ônibus no terminal Tietê umas 2 vezes: para ir a Paraty e Campos do Jordão devido a incidentes de falta temporária de motorista carro. Sim, me julgue: sou esse tipo de pessoa.

Mas, voltando ao México: cheguei na rodoviária e fui comprar o bilhete para Morélia. O organizador da conferência também tinha especificado que eu viajasse apenas com uma certa empresa de ônibus. E só se fosse em primeira classe. Lá fui eu para o resto da aventura. Consegui comprar passagem para o ônibus que sairia dentro de 20 minutos, às 2 da tarde, e que chegaria em Morélia por volta das 7 da noite. Vambora. (*medo*) As passagens de ônibus, ida e volta, custaram algo como US$ 50 (o que, em pesos mexicanos, fica na casa do milhar).

A rodoviária da Cidade do México (essa em que eu estava, porque eu sei que há mais uma, pelo menos), Terminal Poniente, é uma coisa meio surreal. É bem pequena, se compararmos ao Terminal Tietê, ou ao Terminal Barra Funda. Tem uns lugares para comer, mas todos lembram aquelas banquinhas de churrasquinho de gato grego do centro de São Paulo. E eu, morrendo de fome. Tomei um picolé da Nestlé. Não rolou uma coragem para comer uma torta de carnitas.

Depois do lanchinho (e a fome persistia...) fui para a "sala de embarque". Pois é. A empresa de ônibus com a qual eu iria viajar tinha sala de embarque própria, com banheiro próprio (não queiram imaginar o que é o banheiro de uma rodoviária na Cidade do México), ar condicionado (notem: era setembro, fazia um calor dos infernos!) e água potável (i.e., água mineral engarrafada).

Aliás, para quem não sabe, no México só se pode tomar água mineral. Nem gelo genérico é recomendável aceitar, nos restaurantes. Nível Bolívia, Índia, tal. Porque até aí no Congo a gente pode arriscar um gelinho na barraca do peixe vez ou outra. Mas no México, isso só garante a vingança de Montezuma.

Por enquanto, a impressão (fora o lance da água) era até que boa: luxo.

Chegou a hora de embarcar. Entreguei minha mala pro mocinho colocar no bagageiro e fui subindo no ônibus. Na porta, tinha uma mocinha, náipe aeromoça (auto-moça?, rodo-moça?), distribuindo lanchinhos. Pois é, esse lance do ônibus era VIP mesmo. Recebi um sanduíche, batatas chips, e ainda tive opções de bebida (água mineral, suco, refri).

Entrei no ônibus. Meu assento era o de número 5, logo atrás do motorista. Ao meu lado, ninguém. Porque essa empresa de ônibus tinha seus assentos configurados num esquema um-dois. Um de um lado, e dois do outro. E mais: ônibus leito. Com televisão. E com wi-fi!

Tá, por enquanto a coisa estava indo bem:
Expectativas 0 x 1 México.

Mas calma que tem mais. Mas olha a pegadinha: to be continued... (porque tem um monte de bobo que acompanha Lost há uns 28 anos. Que mal tem acompanhar uma série de 3 ou 4 posts?É só porque tem que ler, é? Quanta preguiça, bátiman!)

Dear God (or, how to be stalked by Jehova's Witnesses)

Pois é, criançada. Entre uma conjuntivite e outra, vou tentando postar por aqui com alguma frequência. Muita fé no coraçãozinho.

Falando em fé (ou falta de, no caso), estava eu hoje tranquila, resfriada, de pijama, curtindo um sábado frio e respondendo a um e-mail da Cassy (e me preparando psicologicamente para minha série de exercícios de resistência matinal), quando batem à porta. O respectivo tinha ido à academia (e eu não pude ir por conta do maldito resfriado), então sobrou pra mim.

Abro a porta e... bom dia! São as Testemunhas de Jeová! Elas já tinham passado por aqui uns meses atrás e deixado um revistinha sobre alguma coisa relacionada ao demônio e o dia do juízo, ou sei lá que raios, que vai rolar em 2012. Aliás, esse lance do ano 2012 está dando no saco, porque a impressão é que, com a data se aproximando, as Testemunhas de Jeová estão se tornando mais ativas em suas tentativas de salvar as pessoas. Eles tentaram me salvar até no México, em setembro passado (mas essa é outra história, e será contada em outra ocasião, como já diria titio Michael Ende).

Bom, eram duas moças. Meu problem com essas pessoas é que eleas sempre parecem tão boazinhas, que me dá dó mandá-las embora. Mas vai vendo. Uma abriu um livrinho e começou a ler um lance sobre a serpente, Eva, e a maçã-que-não-era-maçã. E eu, fingindo que estava escutando. Mas aí, - tah! dah! - vem a surpresa. Depois da leitura, ela ia me fazer uma pergunta sobre a leitura. E, como eu não estava prestando atenção (e nem quis me esforçar), não soube responder à pergunta. E aí ela me fez ler - em voz alta, mind you - um trecho da Bíbla. Na real. Ela sacou uma Bíblia da bolsa e me fez ler. E-m v-o-z a-l-t-a.

Está acompanhando o drama? Tudo isso porque eu fui ficar em casa em vez de ir pra academia. Por conta do meu resfriado. Por isso é que eu sempre digo: esse tal Deus de que vocês falam aí, pessoal, tem o senso de humor mais descontrolado do mundo. Tipo, não vale só criar uma galerinha, colocar eles no planeta Terra e jogar uma galera do naipe George W. Nãããão; isso não é maldade suficiente. Tem que mandar as Testemunhas de Jeová para fazer a gente ler a Bíblia. De pijama. Em voz alta. Tussindo. No hall do prédio. Porque desgraça pouca é bobagem.

Monday, February 1, 2010

The American Health Care Crisis (or, our ill wills)

As pessoas no Brasil frequentemente me perguntam sobre o que eu acho do Obama, como vão as coisas na política dos EUA e mais uma porção de coisas que I could care less about. E eu geralmente não tenho muita resposta, porque acompanhar política aqui nos EUA é mais brutal que assassinato de criancinha em Ruanda. Sério. É trágico.

Pra começo de conversa, o Obama mal é preto, né, gente?! Pelamordedeus! Ele só é preto porque isso aqui é os EUA e qualquer um que não é WASP tem que ter um pé nas altas concentrações de melanina. Se fosse no Brasil, ninguém ia nem notar que o cara é preto. Ele está mais pra seis-e-meia. Mas tudo bem, porque eu acho que isso não tem nada a ver com o resto da história (se bem que o ufanismo de "elegemos um presidente negro" me irrita. Porque o Obama não tem o menor grau de semelhança com a galerinha que rodeia o Bronx, yo.)

Bom, mas aí vem toda aquela questão da crise da saúde pública americana, que ninguém entende direito. Vamos a um pequeno curso em "American Health Care 101":

Comecemos com uma anedota - para quem gosta de House vai ser divertido, prometo.

Uma universitária de 26 anos, que tem plano de saúde através de sua faculdade, fica doente. Dali a alguns dias, em um alto estado de confusão mental, ela não consegue formar uma frase coerente. É levada para o pronto-atendimento de um hospital próximo, onde a médica a diagnostica com infecção renal, faz uma coleta de urina e prescreve um antibiótico. A garota usa o seu plano de saúde e descobre que ainda tem que fazer um pagamento de US$ 110 (porque o seguro cobre apenas parte da despesa). Até aí, tudo bem. Antes US$ 110 que uma falhar renal.

A garota volta para casa. No dia seguinte, viaja para uma cidade a 4 horas de onde estava. Dirige quase a viagem toda. E vai para a reunião de família do seu Respectivo. E começa a passar mal. Vai dormir e, no dia seguinte, volta a pronunciar frases incoerentes e tem uma febre de 41C.

Vai a outro hospital, dessa vez um pronto-socorro. Na hora de fazer a ficha, ela está com uma febre tão alta e delirante que não consegue soletrar seu nome.

Logo é atendida por um médico, que pede uma nova coleta de urina. Esse médico sequer examina a garota. Ele liga para o primeiro hospital, onde os resultados da primeira coleta de urina já haviam chegado, e descobre que a garota está tomando o antibiótico errado. Prescreve o novo. E muito descando, muita água e afins. Novamente, a garota usa seu plano de saúde. E paga mais US$ 110.

No mês seguinte, quando volta para casa, a garota se depara com várias cartas de cobranças dos hospitais. Além dos US$ 220 iniciais gastos, havia mais US$ 1400 a serem pagos. MIL-E-QUATROCENTAS-DOLETAS!! - isso para cobrir os exames laboratoriais e as consultas médicas. Detalhe: a consulta em que o médico sequer a examinou e apenas prescreveu o novo antibiótico tinha custado US$ 960!

A garota liga para o plano de saúde, liga para os hospitais, pergunta sobre os procedimentos de como usar o seguro para cobrir tudo e... noves fora, seu saldo devedor cai para US$ 300. Nada mal para quem devia US$ 1400. Mas lembrem-se de que ela já havia pago US$ 220 no início da história.

Ou seja, mesmo com plano de saúde, as duas visitas de emergência custaram US$ 520!

E não há alternativa, porque, nos EUA, não há um sistema de saúde pública. Nem algo meio podre e similar ao SUS. A sorte da garota é que, como universitária, ela tinha direito a ter plano de saúde (que custa os olhos da cara, by the way).

Quem está desempregado, ou não tem emprego equivalente ao que no Brasil seria a CLT (i.e. a maioria da população nas áreas metropolitanas), sequer tem direito a ter plano de saúde. É que nem seguro de carro velho. Mesmo que você queira, a empresa simplesmete se recusa a vender. Se fosse esse o caso da garota, seu débito ficaria em torno de US$ 2000.

Mas e aí, Bóris? Se a pessoa mal tem emprego, como faz para pagar US$ 2000? E é aí que vem a virada de gênio: esse tipo de dívida não se paga, simplesmente.

Porque visitas a pronto-socorros, depois de um certo tempo (um ou dois anos, não sei bem) caducam. Quando o indivíduo não paga, é responsabilidade do governo federal pagar ao hospital por aquelas despesas. Então, você me pergunta, que motivos teria a garota para pagar sua dívida restante, ainda que de apenas US$ 300?

Pois é. Nenhum motivo. Entendeu agora a crise da saúde pública?
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