Monday, February 1, 2010

The American Health Care Crisis (or, our ill wills)

As pessoas no Brasil frequentemente me perguntam sobre o que eu acho do Obama, como vão as coisas na política dos EUA e mais uma porção de coisas que I could care less about. E eu geralmente não tenho muita resposta, porque acompanhar política aqui nos EUA é mais brutal que assassinato de criancinha em Ruanda. Sério. É trágico.

Pra começo de conversa, o Obama mal é preto, né, gente?! Pelamordedeus! Ele só é preto porque isso aqui é os EUA e qualquer um que não é WASP tem que ter um pé nas altas concentrações de melanina. Se fosse no Brasil, ninguém ia nem notar que o cara é preto. Ele está mais pra seis-e-meia. Mas tudo bem, porque eu acho que isso não tem nada a ver com o resto da história (se bem que o ufanismo de "elegemos um presidente negro" me irrita. Porque o Obama não tem o menor grau de semelhança com a galerinha que rodeia o Bronx, yo.)

Bom, mas aí vem toda aquela questão da crise da saúde pública americana, que ninguém entende direito. Vamos a um pequeno curso em "American Health Care 101":

Comecemos com uma anedota - para quem gosta de House vai ser divertido, prometo.

Uma universitária de 26 anos, que tem plano de saúde através de sua faculdade, fica doente. Dali a alguns dias, em um alto estado de confusão mental, ela não consegue formar uma frase coerente. É levada para o pronto-atendimento de um hospital próximo, onde a médica a diagnostica com infecção renal, faz uma coleta de urina e prescreve um antibiótico. A garota usa o seu plano de saúde e descobre que ainda tem que fazer um pagamento de US$ 110 (porque o seguro cobre apenas parte da despesa). Até aí, tudo bem. Antes US$ 110 que uma falhar renal.

A garota volta para casa. No dia seguinte, viaja para uma cidade a 4 horas de onde estava. Dirige quase a viagem toda. E vai para a reunião de família do seu Respectivo. E começa a passar mal. Vai dormir e, no dia seguinte, volta a pronunciar frases incoerentes e tem uma febre de 41C.

Vai a outro hospital, dessa vez um pronto-socorro. Na hora de fazer a ficha, ela está com uma febre tão alta e delirante que não consegue soletrar seu nome.

Logo é atendida por um médico, que pede uma nova coleta de urina. Esse médico sequer examina a garota. Ele liga para o primeiro hospital, onde os resultados da primeira coleta de urina já haviam chegado, e descobre que a garota está tomando o antibiótico errado. Prescreve o novo. E muito descando, muita água e afins. Novamente, a garota usa seu plano de saúde. E paga mais US$ 110.

No mês seguinte, quando volta para casa, a garota se depara com várias cartas de cobranças dos hospitais. Além dos US$ 220 iniciais gastos, havia mais US$ 1400 a serem pagos. MIL-E-QUATROCENTAS-DOLETAS!! - isso para cobrir os exames laboratoriais e as consultas médicas. Detalhe: a consulta em que o médico sequer a examinou e apenas prescreveu o novo antibiótico tinha custado US$ 960!

A garota liga para o plano de saúde, liga para os hospitais, pergunta sobre os procedimentos de como usar o seguro para cobrir tudo e... noves fora, seu saldo devedor cai para US$ 300. Nada mal para quem devia US$ 1400. Mas lembrem-se de que ela já havia pago US$ 220 no início da história.

Ou seja, mesmo com plano de saúde, as duas visitas de emergência custaram US$ 520!

E não há alternativa, porque, nos EUA, não há um sistema de saúde pública. Nem algo meio podre e similar ao SUS. A sorte da garota é que, como universitária, ela tinha direito a ter plano de saúde (que custa os olhos da cara, by the way).

Quem está desempregado, ou não tem emprego equivalente ao que no Brasil seria a CLT (i.e. a maioria da população nas áreas metropolitanas), sequer tem direito a ter plano de saúde. É que nem seguro de carro velho. Mesmo que você queira, a empresa simplesmete se recusa a vender. Se fosse esse o caso da garota, seu débito ficaria em torno de US$ 2000.

Mas e aí, Bóris? Se a pessoa mal tem emprego, como faz para pagar US$ 2000? E é aí que vem a virada de gênio: esse tipo de dívida não se paga, simplesmente.

Porque visitas a pronto-socorros, depois de um certo tempo (um ou dois anos, não sei bem) caducam. Quando o indivíduo não paga, é responsabilidade do governo federal pagar ao hospital por aquelas despesas. Então, você me pergunta, que motivos teria a garota para pagar sua dívida restante, ainda que de apenas US$ 300?

Pois é. Nenhum motivo. Entendeu agora a crise da saúde pública?

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